A Fugitiva


Era um dia como outro qualquer. Joelma tinha acordado às seis da matina, como já era de costume, e se preparava para ir trabalhar. Ela trabalhava numa loja do maior shopping do Rio. Aquela loja sem dúvidas era a melhor. Mas os vendedores, além de serem rigorosamente escolhidos (leia-se: teste do sofá), tinham que manter sempre uma boa aparência. Tinham que estar sempre belos e impecáveis.

Terminou o banho. Iniciou a penteação diária em frente ao espelho. De repente ouve-se um grito. Então mais um. Era o que ela mais poderia temer na face da Terra: uma espinha. E não era uma pequena espinha. Era A espinha, vigorosa e rubra, como nenhuma outra havia jamais sido.

O desespero tomou conta da nossa Jô. O que fazer diante daquela maldade imposta pelo Senhor? Espremer, claro! Era a única saída. E foi isso o que ela fez: pressionou com toda a força que dispunha e viu, como um tomate ao cair no chão, a bicha explodir. O espelho ficou todo cagado de pus e o sangue escorreu.

Mais um grito! “Porque eu não pensei nisso?” ela se perguntou, já aos prantos. Surgiu um imenso buraco em seu belo rosto. Uma verdadeira cratera, muito pior que a outra espinha. Não poderia nem ter esperanças de que aquilo sumisse. Sabia que seria uma cicatriz para toda a vida.

Era o fim pra ela. Não tinha mais jeito. Desistira de viver depois daquele dia. Seu último contato com o mundo exterior foi durante o telefonema para sua chefe em que pediu demissão. Desde então vive, em seu quarto, no escuro. Escondendo-se de si mesma.

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