Imagine que você pudesse ter um dossiê completo de como nasceu e é atualmente o setor de petróleo nos Estados Unidos, e por conseguinte em quase todo o mundo. Foi isso o que Antonia Juhasz conseguiu fazer ao escrever “A Tirania do Petróleo”, publicado no Brasil pela Editora Ediouro.
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Quando o meu exemplar foi enviado pela Ediouro, eu fiquei em dúvida se ele capturaria a minha atenção. No entanto, tive uma grata surpresa com o texto de Antonia Juhasz. Ela não se utiliza daquela linguagem intelectual e rebuscada que muitas vezes mais atrapalha do que ajuda na comunicação. Tenho algumas restrições com relação à tradução de Carlos Zslak, mas de modo geral é uma publicação inteligível.
O livro começa, como já poderíamos esperar, pelo começo da história do petróleo nos EUA. Na segunda metade do século 19, o empreendedor John Rockefeller funda a Standard Oil of New Jersey, que viria a ser um dos maiores conglomerados do mundo. E faria de Rockefeller o homem mais rico de todos os tempos. A título de curiosidade, a fortuna dele valeria hoje cerca de trezentos bilhões de dólares (ou sete vezes a fortuna de Bill Gates).
Dissoluções e fusões
Dois momentos do livro são, em definitivo, os mais interessantes. O primeiro deles é quando Antonia Juhasz descreve o processo de diluição da Standard Oil, devido ao monopólio que a empresa de Rockefeller estava se tornando. Isso mesmo, naquela época – início do século 20 – o governo e os cidadãos dos Estados Unidos já se preocupavam com a excessiva concentração de mercado. Como resultado da ação governamental, a Standard se tornou trinta e seis empresas distintas, mas com desejos muito semelhantes.
Passam-se os anos, as décadas, até que chegamos ao segundo momento que mais me interessou do livro: o reagrupamento das empresas que um dia foram a Standard Oil. Assim como tem acontecido em alguns setores econômicos brasileiros nos últimos anos, nos Estados Unidos as empresas petrolíferas voltaram a se unir. Em dado momento, a onda de fusões e compras entre grandes petrolíferas teve início.
Hoje em dia elas são conhecidas como as Big Oil. A maior delas é a ExxonMobil, fusão da Exxon com a Mobil que teve lucro líquido de quarenta bilhões de dólares no ano passado. Isso mesmo, o lucro foi de quarenta bilhões. O faturamento passou dos quatrocentos bilhões. Também temos a Shell, a BP, a Chevron/Texaco, a ConocoPhilips e a Total consideradas como Big Oil. Todas são donas de verdadeiros impérios do petróleo, e controlam mais de dez por centro da oferta mundial da commodity.
Juhasz conhece muitos detalhes da negociata por trás desses negócios, que permitiram que algo próximo da inicial Standard Oil ressurgisse. Segundo a autora, essas empresas com lucros fabulosos têm poder de decisão sobre muitos aspectos da vida dos norte-americanos. Elas conseguem comprar votos, proibir leis e fazer daquele país o que bem entendem. Por isso mesmo a autora defende que elas sejam diluídas novamente.
A história de como essas empresas se articularam para fazer dos Estados Unidos um grande campo de extração de petróleo é impressionante. Antonia Juhasz conseguiu documentos e detalhes até então nunca conhecidos, porque a indústria de petróleo mantém seus assuntos internos protegidos de uma tal forma que só os que participam e compartilham interesses com as grandes corporações têm acesso a alguns deles.
Areias betuminosas
Em “A Tirania do Petróleo” não é falado somente da face econômica da indústria norte-americana de petróleo. Antonia Juhasz também explica o funcionamento de alguns aspectos mais técnicos das petrolíferas. Ela apresenta seus leitores a dados muito curiosos, como o da extração de petróleo a partir de areia.
Nunca tinha ouvido falar nas areias betuminosas, mas elas são a mais nova esperança da indústria de petróleo para que a matéria-prima não se acabe nos próximos vinte ou trinta anos. Em Alberta, no Canadá, as corporações descobriram um tipo de areia que contém betume, um óleo muito grosso que, quando refinado, se transforma em óleo cru.
O processo de extração desse óleo não é tão fácil quanto poderíamos imaginar. Primeiro é preciso revirar o solo do local, em busca da areia de melhor qualidade. Depois começam os processos químicos, que eu não saberia explicar como funcionam, mas que, no fim do processo, fazem com que apenas dez por cento da areia “processada” vire o óleo cru. O resto é descartado, muitas vezes de forma descuidada.

Destruição: extração de óleo nas areias betuminosas de Alberta, Canadá. (Wikipedia)
Incrível, não? Mais incríveis são imagens da destruição que a Exxon e suas irmãs menores estão causando às areias de Athabasca, em Alberta. Máquinas gigantes são necessárias para fazer a extração da areia e do óleo. Pelo caminho dos campos de extração, as empresas vão construindo grandes tanques nos quais os químicos usados durante o processo são despejados. Alguns desses tanques são tão grandes que podem ser vistos do espaço, e a magnitude é tamanha que algumas petrolíferas já consideram a construção de usinas nucleares próximas aos campos de extração, para que seja gerada energia suficiente para extração do óleo das areias betuminosas.
Conclusão
Infelizmente “A Tirania do Petróleo” é muito focado nos Estados Unidos. Portanto, fica difícil fazer comparações entre o modelo do setor de petróleo americano e o brasileiro, que é basicamente monopolista. Seria interessante que a Ediouro contratasse algum especialista brasileiro em petróleo para escrever um posfácio, no qual faça considerações sobre a indústria do petróleo nacional.
Ainda assim, é um livro muito bom e altamente recomendado, não só para quem tem interesse no setor de petróleo, mas também para quem gosta de atualidades e curiosidades. Nos últimos capítulos, por exemplo, Antonia Juhasz prova por A mais B que a guerra no Iraque foi por petróleo. E inclusive já nos alerta para o próximo alvo das Big Oil na guerra por petróleo, que você só vai conhecer se comprar o livro.
“A Tirania do Petróleo”
- Autora: Antonia Juhasz
- Editora: Ediouro
- Páginas: 430
- ISBN: 9788500024771
- Publicado originalmente nos Estados Unidos em 2008
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Eu li esse livro e simplesmente adorei. Concordo com tudo o que disse. É um livro que realmente nos faz querer ler no mesmo dia e percebe como essa indústria comanda diversos setores dos mais inofensivos aos mais poderosos. Recomendo outros livros no mesmo estilo de Antonia também, porém focando nos Estados Unidos também. É uma pena. Abraços e ótimo site!