Somos como cadernos
Publicado em 22 de abril de 2010 às 22:00 por Thássius Veloso
Assunto: Vida mundana | Leia mais: faculdade, reflexão
Paixão dos escritores, que fazem dele o início do desencadeamento de ideias que mais tarde tornar-se-ão uma bela publicação. O que não é o caderno, senão o máximo símbolo das proporções que a criação humana pode atingir a partir de uma pequeníssima fagulha de inspiração? Iniciando-se nela, o escritor lapida sua história, fazendo de forma artesanal a junção de letras e palavras e frases e parágrafos, a fim de que, mais tarde, possa ter outras pessoas a ler tal obra.
Ele começa vazio, desprovido de conhecimento, de saber. No entanto, vê a si mesmo ser preenchido conforme o escritor deposita nele o discurso que aos poucos vai sendo construído. Com o tempo, deixa de ser um ignorante; passa a ser um sábio, daquilo que diz respeito ao que seu dono quer contar.
Até que chega o momento crucial no qual, contendo muitos dos rabiscos do autor e pouco espaço para novas anotações, é deixado em uma gaveta. Normalmente para consulta futura, nostálgica. Poucos são os que chegam a se tornar belos livros de capa dura e papel macio, mas todos cumprem seu propósito inicial: permitir que até mesmo o escritor de menor perícia e conhecimento possa tomar notas, escrever textos e contar histórias.
Tantos são os cadernos que preenchemos durante a nossa vida, que contêm dados sobre nós, sobre o que aprendemos, sobre o que é importante para a nossa história. Poucos homens, porém, são os que percebem que nós também fazemos as vezes do papel. Assim como aquele caderno que é obtido vazio, livre de conceitos, numa livraria, também os seres humanos nascemos assim. A vida nos escreve, à medida que a vivência nos acontece.
Tal qual num caderno, uma criança saída da maternidade está em branco. Não tem o que dizer, muito menos impressões a contar. Somos nós que, ao educar o pequeno, fazemos escolhas que acabam por ser escritas nele. Como um lápis, a maioria de nós tenta escrever nesse novo caderno em branco as boas maneiras, costumes que sejam interessantes à sociedade.
Mais tarde, é o próprio sujeito quem escreve em seu caderno: o caderno da vida. Ao longo de anos e décadas, vai aprendendo, pensando, refletindo, interagindo. E tudo isso fica registrado, ainda que não percebamos, naquele caderno, que não está mais em branco. Já tem páginas de histórias, alguns borrões e espaços para que possamos comentar.
Como no caderno, as anotações da vida podem não ser do interesse de qualquer um, mas ainda assim é do interesse de seu autor. Todos gostamos de contar histórias de nós mesmos, narrar nossos momentos de gargalhadas ou experiências complicadas. Portanto, recorremos ao nosso caderno individual e único. Ele pode dizer quem somos.

3 comentários
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22/04/2010 22:12
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Felipe Hautequestt
23/04/2010 1:23
Que texto gostoso e belamente escrito! Finalmente li o Thássius, e não apenas um futuro jornalista.
Rafa
23/04/2010 4:55
Não é só quando crianças que nossos cadernos são escritos. Ao longo da vida emprestamos o lápis ou caneta para varias pessoas. Pessoas que gostamos, que amamamos, que passam por nossa linha de tempo e deixam sua marca na nossa personalidade.
E nem sempre usamos apenas lápis. Escrita com ele pode ser apagada, modificada. Apenas depois de um tempo, com auto-confiança suficiente, passamos a usar a caneta, mais permanente, mais eterna.
Once again, belíssimo texto.
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