“Não temos nada a declarar sobre o assunto”. Essa frase, que poderia muito bem ser dita por algum Paulo Maluf, é uma das mais ouvidas por aqueles jornalistas que insistem em entrar em contato com a Apple, a empresa norte-americana que produz um dos aparelhos mais desejados de todos os tempos. Não que a Apple tenha ficha suja, sem poder declarar-se sobre assuntos de interesse próprio, mas sempre foi assim: são eles que mandam na notícia.
A cultura de superproteção empregada pela empresa de Steve Jobs não é de hoje. Já nos anos 80, quando a Apple ainda iniciava sua trajetória extraordinária no meio empresarial, Steve Jobs, seu fundador, determinava o que podia e o que não devia ser publicado pela imprensa. Àquela época, Jobs tinha o contato dos principais jornalistas de tecnologia do mundo e não subestimava seu poder de influência quando era preciso encerrar algumas pautas antes de serem publicadas.
Com o passar dos anos e com o aumento da Apple, esse processo internalizou-se. Jobs saiu da empresa e voltou dez anos depois, com uma ideia ainda mais espartana de como a comunicação da Apple seria conduzida. Entrevistas? Algo praticamente impossível. Qualquer informação que não esteja nos releases e comunicados é tratada como segredo de Estado, até que algum dirigente autorize (mais provável que não) a sua revelação. Com isso, temos apresentações de produtos frequentes, nas quais finalmente o consumidor descobre o que a empresa da maçã tanto apronta, de uma tacada só. Antes disso, é silêncio total.
Encontrar fontes dentro da Apple que vazem informação é tarefa árdua, difícil mesmo. Além da questão moral que esses segredos industriais implicam, todos dentro do campus da empresa assinam um acordo de confidencialidade quando são contratados. Ou seja, mesmo que quisessem falar, não poderiam fazê-lo. E como já disse Wittgenstein, sobre aquilo que não podemos falar, devemos nos calar. É o que todos dentro da Apple fazem: calam-se.
Por enquanto a estratégia de Jobs e seu time de executivos avessos ao público tem funcionado. Porém, o recente caso conhecido como antenagate, quando a empresa foi obrigada a revelar como conduz os testes de recepção de sinal do idolatrado iPhone 4, provou que, vez ou outra, os consumidores demandarão mais informações do que a empresa está disposta a fornecer. Resta saber o quão disposto Jobs está de atender essas demandas daqueles que fazem a Apple ser a Apple.








