A morte prematura do Kin

Tudo começa com uma ideia. Oh, que tal produzirmos um equipamento novo, que possibilite aos nossos clientes ter acesso fácil aos amigos e à família? Como um relâmpago, vão sendo desenvolvidas as características desse novo produto. O que entra e o que sai? O preço também precisa ser camarada. Tudo pronto, uma boa agência de publicidade consegue estampar esse produto nos principais veículos de comunicação. E assim temos um lançamento de sucesso.

A fórmula parece ser tão fácil, mas quando colocada em prática, surgem tantos problemas, tantas dores de cabeça. O Kin, por exemplo: um aparelhinho modesto, com preço inicialmente mais elevado, e depois modesto, produzido por uma empresa nada modesta. A Microsoft tinha tudo para colocar no mercado um celular competitivo, que atingisse em cheio os adolescentes que gostam das redes sociais virtuais, mas não podem arcar com o preço de um iPhone – são 199 dólares, mas é preciso ter um plano de dados robusto e ficar preso à operadora por dois anos.

Em vez disso, a empresa do visionário Bill Gates colocou no mercado um celular inicialmente sem público definido, o que já dificulta na hora de vender. Para completar, havia dois modelos muito distintos, que demonstravam a falta de propósito da linha Kin. Um deles tinha cara de celular, mas design esquisitão. O outro parecia smartphone, com desenho bonito, mas faltava um sistema confiável. No fim das contas, nenhum deles vingou.

Não há discussão: a morte prematura dos aparelhos Kin foi a notícia dessa quarta-feira no mundo da tecnologia. Se cada dólar investido em pesquisa e desenvolvimento pela Microsoft fosse uma braçada, a empresa já teria nadado muito – muito mesmo: bilhões de braçadas -, mas sempre morrendo na praia. Como pode?

O que falta à Microsoft é fôlego. Enquanto a empresa não decidir em quais mercados quer realmente jogar, terá um caminho de pedras e derrotas pela frente. O Xbox é um caso de sucesso, porque criou um verdadeiro concorrente ao mercado antes dominado por Sony e Nintendo. Já o Kin vai para o histórico de investidas mal sucedidas, com seu encerramento anunciado apenas dois meses depois do lançamento. Ainda havia tempo para tentar salvar a linha, mas jogaram a toalha.

E na linha intermediária, temos o Zune. O player de mídia parece ter características interessantes, mas todo mundo ainda prefere comprar um iPod. Mérito da Apple, que cria uma aura de desejo no entorno do seu tocador de música, enquanto que a Microsoft apenas lança mais um produto. Daqui a pouco também vai parar no cemitério de tecnologias fracassadas.

Celular para a vó

Eu sou o sobrinho que entende de informática da família. Sempre que alguém precisa saber como fazer algo no computador que parou de funcionar, na televisão de LCD que acaba de ser entregue ou então naquele site bacana que não quer entrar, normalmente a pessoa solicitada para resolver esse tipo de pepino sou eu.

É a partir daí, de ajudar parentes – principalmente os mais velhos – que tenho observado como os fabricantes de eletrônicos não têm se esforçado para entregar aparelhos que sejam adaptados às necessidades de um cliente com idade mais avançada. Quando não ensino a mexer em um celular novo, torno-me pelo menos o tradutor desses manuais ininteligíveis que mais complicam a vida do que auxiliam alguma coisa (quando não são entregues em forma de arquivo de PDF, o que piora a situação).

Ultimamente minha peregrinação tem sido em busca de um celular que seja elderly friendy, ou amigável para os idosos. Não entendo de que adianta atochar trezentas funções em um aparelho, se o público-alvo desse aparelho não conseguirá acessar nem dez por cento de todas essas funções. Quando muito, conseguem fazer uma na lista de contatos para evitar memorizar os números de telefone dos parentes.

Parece que as empresas fabricantes de celular, entre outros eletrônicos, ainda não atentaram para o fato de que as populações estão envelhecendo e uma nova demanda está surgindo por equipamentos mais fáceis de usar e sem tantos recursos que não vão ser aproveitados. Eu, se fosse consultor de uma Nokia ou LG, já teria os aconselhado a investir mais nesse mercado. Deve ser bastante lucrativo.

Samsung Jitterburg.

Samsung Jitterburg.

Numa rápida pesquisa, descobri que a Samsung já oferece um celular adequado às necessidades dos mais velhos desde 2006. O Jitterburg (nome mais esquisito), da foto acima, tem teclas grandes e interface bastante intuitiva. Acho que é a primeira vez que vejo um celular com teclas “Sim” e “Não”, por sinal. Não sei se ele fez sucesso nos mercados em que foi lançado, mas a opção de comprar um Jitterburg aqui no Brasil ainda está em falta.

Enquanto isso, minha avó precisa fazer resumos manuscritos do que os manuais dizem, com instruções “oficiais” misturadas com o que o neto (eu!) aconselhou para facilitar o acesso aos recursos. Não precisava ser assim.