Muitos efeitos especiais… E só.
Cheguei à sala de cinema sem muitas expectativas para “Tron: O Legado”. Até sabia que o filme estava recebendo muita atenção de alguns blogs geeks dos Estados Unidos, mas somente isso. Ah, e também sabia que era uma espécie de retomada de um filme lá de 1982. No entanto, não tinha um grande desejo de assistir “Tron”. Felizmente, porque o filme é bastante ralo, para dizer o mínimo. Decepciona como cinema, embora seja grandioso em seus efeitos especiais.
A história por trás do filme não é exatamente nova: o encontro do mundo real com o digital, da carne e osso com o código binário. É a partir de uma descoberta científica que Kevin Flynn (interpretado por Jeff Bridges), o fundador de uma importante empresa de informática fictícia (a Encom, uma espécie de Microsoft) vai parar em outro mundo onde tudo é digitalizado, perfeito. O desejo desse homem é criar um ambiente onde não exista espaço para as imperfeições da vida mundana. Claro que a empreitada não dá muito certo, e ele acaba aprisionado nesse mundo por muitos anos, até que seu filho, já crescido, descobre esse portal entre o real e o virtual, chegando à realidade binária quase que por acaso.
“Tron” tem sua trama revelada depois que Sam Flynn (Garrett Hedlund) coloca os pés nesse maravilhoso mundo. Seu pai havia criado uma cópia de si mesmo, chamada de Clu, que funcionaria como um programa de computador, com o objetivo de criar o sistema perfeito. Talvez apenas cumprindo suas funções, Clu tenta destruir Flynn, por – se bem entendi – ser um usuário, e não um aplicativo nativo daquele ambiente. Bem a tempo de salvar tudo, Sam torna-se o herói por acaso que deve conduzir seu pai de volta para o mundo real, antes que o vilão Clu consiga acesso ao portal e escape junto com um exército de seres bastante habilidosos na arte da destruição.

Sam Flynn: de errante a herói em apenas 127 minutos de filme
O que chama a atenção nesse filme é a tradicional inversão de anti-herói rumo às boas ações. No começo de “Tron”, Sam é retratado como um jovem inconsequente. Ele chega até mesmo a invadir a sede da Encom, a empresa que ele deveria liderar mas furta-se disso, a fim de atrapalhar o lançamento de um novo sistema operacional. Durante a transmissão ao vivo para o mundo inteiro, Sam acessa os servidores da corporação e libera o OS 12 na internet, para que qualquer um baixe. Ou seja, um rapaz sem qualquer comprometimento com o seu próprio patrimônio. Além disso, mostra-se arrogante e prepotente durante boa parte da película, até que reencontra o pai já bastante velho e decide realizar uma boa causa. Termina a projeção como um verdadeiro herói, não por salvar Flynn, mas por cumprir o objetivo que seu mentor havia lhe pensado.
Esse encontro de Sam consigo mesmo, com seus ideais plantados faz muitos anos pelo pai intelectual, é algo que todos nós deveríamos procurar. Às vezes passamos por situações que acabam por nos endurecer, nos transformar em pessoas mais céticas – para bom entendimento: descrentes -. O problema desse comportamento é que, como o Sam do filme, acabamos por não acreditar no melhor que as demais pessoas podem nos oferecer. Ainda bem que certas jogadas – Da vida? Destino? – fazem com que enxerguemos isso a tempo de corrigir o rumo e seguir em frente. É justamente o que o fim de “Tron” propõe, embora a projeção deixe claro que esse caminho errante de um de seus protagonistas não é livre de consequências (mais uma vez, como tudo na vida). Talvez essa seja a mensagem mais aproveitável do filme.
Como eu disse, o roteiro de “Tron: O Legado” é bastante ralo. O mesmo não vale para os efeitos especiais, que são simplesmente espetaculares. Os técnicos da Disney tiveram bastante trabalho para construir um mundo que tenha cara de algo digital, pensado pixel a pixel. Abusa-se de cores fortes, como o azul e o laranja, até mesmo como forma de mostrar visualmente quem são os bons moços e quem são os vilões. A Grade (The Grid, em inglês) é um lugar absolutamente escuro, o que propicia uma perigosa combinação com os óculos 3D que são oferecidos na salas de cinema, pois fica bem mais difícil de enxergar cenas escuras com esses acessórios, que normalmente já deixam as coisas mais escuras.

Tron: excelente para um filme de tecnologia
Por sinal, o 3D desse filme merece um comentário à parte. Ainda não entendi por que cargas d’água a Disney decidiu fazer “Tron” em três dimensões com essa imersão de forma tão tímida. Praticamente todas as cenas anteriores à entrada de Sam no mundo virtual são no 2D convencional, e muito do que acontece depois disso é retratado com pouco uso dessa nova tecnologia. Ora, se quer anunciar um filme como 3D, que o faça direito. Ninguém merece pagar algo na casa dos trinta reais por um ingresso de filme supostamente em três dimensões para assistir, na melhor das hipóteses, a meio filme em três dimensões.
Resumindo: “Tron: O Legado” tenta ser algo cinematográfico e tecnológico ao mesmo tempo. Falha na primeira proposição, mas certamente é bem sucedido como uma história de ficção científica ordinária. Se é disso que você gosta, corra para o cinema e assista o filme, porém mantenha distância das exibições em 3D. Não vale o ingresso.



