
Tinha que ser culpa da Apple
Ontem o Rodrigo Ghedin iniciou no blog uma discussão muito interessante sobre como a nova mídia deve escrever nomes de empresas, produtos e marcas. Tudo começou com uma conversa por Messenger, na qual o Ghedin dizia que é errado escrever “iPod Touch”, conforme eu faço em meus posts para o Tecnoblog News. Ele diz que a Apple, fabricante do produto, sempre escreveu “iPod touch” (com o tê minúsculo, como na página do produto) em seus comunicados e anúncios, e que, portanto, essa seria a forma correta de escrever.
Eu fui consultar os dois manuais de redação que eu tenho, um do Estadão e outro da Folha de São Paulo. Na esperança de ter uma resposta, acabei encontrando mais dúvidas, visto que nenhum dos manuais fala explicitamente de casos semelhantes ao do “iPod Touch”. No máximo, uma citação ou outra sobre nomes próprios, mas nada muito extenso ou determinante.
O manual de redação do Estado diz o seguinte na página 191, sobre nomes de institutos, órgãos, entidades, empresas e produtos: “Os nomes de órgãos, entidades e institutos públicos ou oficiais deverão ser adaptados às normas ortográficas vigentes”. Entre os exemplos dados, temos Butantã (e não Butantan, com “an” no final) e Fundação Osvaldo Cruz (sem o “w” em “Osvaldo”). Nada, no entanto, chega sequer próximo do aparelho da Apple, o que complica a discussão.
Penso que, nesses casos em que há dúvida, fica a critério do redator (ou do veículo, caso trabalhe em um) decidir qual grafia adotar. É evidente que a empresa faz um esforço criativo e econômico para conceber os nomes dos produtos, inclusive com agências especializadas na criação de marcas, mas ainda assim nenhum veículo é obrigado a seguir o que a cartilha de publicidade da empresa em questão determina.
Pelo que me lembro dos tempos de alfabetização, nomes próprios prevêem suas primeiras letras iniciadas em caixa alta. A pergunta que eu faço: até que ponto “iPod Touch” é um nome próprio? Do meu ponto de vista, é sim um nome próprio e merece ter sua segunda palavra iniciada por maiúscula, ainda que a empresa detentora da marca pense o contrário.
Outro exercício necessário a quem escreve é ponderar se o nome do produto vai causar confusão ou estranheza a quem lê o texto. Uma pessoa que lê “A Apple anunciou hoje um iPod touch com sistema iPhone OS” vai entender que o nome do produto é “iPod touch”? Ou vai pensar que “iPod” é o produto em si e o “touch” é algum complemento, sem descobrir qual? No entanto, ao escrever “A Apple anunciou hoje um iPod Touch com sistema iPhone OS”, fica evidente que o nome completo do produto é “iPod Touch”. Ou não?
A decisão da empresa de veicular o nome do produto com minúsculas em seus anúncios é soberana, pois é questão de marca. Mas o redator, mais do que preocupado com a marca, está preocupado com que o leitor compreenda completamente a mensagem. Se for desnecessário capitalizar uma letra ou outra, excelente; na maioria das vezes isso não será preciso. E quando for necessário, que se faça a capitalização.
Como não existem exemplos (eu não consegui lembrar de um sequer) de marcas e produtos brasileiros que possuam a mesma dinâmica do “iPod Touch”, falta-nos material para consulta e referências. Nesse caso, o melhor é deixar que o autor do texto opte pelo que acha melhor.
Eu devolvo a pergunta para os comentaristas do Memórias: qual forma (touch ou Touch) vocês preferem e por que motivo?