Os nacirema

Tomei conhecimento nessa semana da existência de um povo do qual nunca antes na história desse país eu tinha ouvido falar. Por sinal, como pode ainda hoje existirem povos ocultos, que vez ou outra algum pesquisador descobre, não é mesmo? Enfim, a descoberta do povo chamado de Nacirema foi feita pelo antropólogo Horace Miner.

De acordo com o antropólogo, “pouco se sabe sobre sua origem, embora a tradição relate que vieram do leste”. E o pouco que se sabe já é mais do que suficiente para chamá-los de loucos e bárbaros. Os nacirema até hoje acreditam nos objetos mágicos, algo que obviamente não existe. Também são adeptos de muitos rituais e cerimônias:

Foi a estas tendências que o Prof. Linton (1936) se referiu na discussão de uma parte específica dos ritos corporal que é desempenhada apenas por homens. Esta parte do rito envolve raspar e lacerar a superfície da face com um instrumento afiado. Ritos especificamente femininos têm lugar apenas quatro vezes durante cada mês lunar, mas o que lhes falta em freqüência é compensado em barbaridade. Como parte desta cerimônia, as mulheres usam colocar suas cabeças em pequenos fornos por cerca de uma hora. O aspecto teoricamente interessante é que um povo que parece ser preponderantemente masoquista tenha desenvolvido especialistas sádicos.

Em que outra civilização seria permitido que um homem destrua o próprio rosto, num hábito quase que diário? E qual sociedade estaria satisfeita e consideraria normal que suas mulheres fossem obrigadas, em nome de um ideal que ninguém é capaz de explicar, a enfiar suas cabeças em fornos, para que busquem uma satisfação até agora inexplicada?

Confesso que fiquei chocado ao tomar conhecimento da história dessa civilização. Mas não para por aí. Os nacirema ainda são adeptos da feitiçaria. Eles mantêm em suas casas verdadeiros santuários, nos quais poções e pós mágicos inventados por feiticeiros são armazenados. Alquimistas ficam encarregados de obter substâncias incríveis para reverter o que é biológico e natural: “são feitos esforços para evitar a gravidez, pelo uso de substâncias mágicas”.

O texto completo sobre os nacirema pode ser encontrado aqui, em PDF. Depois de lê-lo, não esqueça de depositar seus comentários nesse post.

Capitalism: A Love Story, de Michael Moore

Michael Moore é Michael Moore. Partindo do pressuposto de que o cineasta tem um jeitinho muito próprio de apresentar determinados temas em seus documentários, como o excelente e ácido “Fahrenheit 9/11″ prova, não é de surpreender que em “Capitalism: A Love Story” (Capitalismo: Uma História de Amor em português) Moore mais uma vez desconstrói crenças norte-americanas e prove o quão complicada é a situação daquele país.

Como o próprio nome sugere, “Capitalism” é uma produção que versa sobre como esse modelo econômico foi implementado e é executado nos Estados Unidos. Versa sobre a capacidade do cidadão americano de viver para o dinheiro, e como isso pode ser perigoso, principalmente quando o país se afunda em uma crise gravíssima graças à especulação imobiliária, que teve origem na ganância de poucos e na falta de informação de muitos proprietários de imóveis.

Triste mesmo são as cenas em que famílias são expulsas de suas casas depois de terem renegociado a hipoteca. Por quê? Porque anúncios e mais anúncios (tinha que ser culpa da publicidade!) foram feitos nos mais variados meios de comunicação, nos quais bancos afirmavam que ter uma casa é como ter um cofre. Ao negociá-la, você tem dinheiro para gastar no que quiser. Claro que isso não é de graça, juros são inseridos na conta. E quando começa a faltar dinheiro para pagar a hipoteca, bem, você já sabe: começa o efeito em cadeia que deixou a economia yankee em frangalhos.

Mas mais do que mostrar que a situação americana é ruim, Moore dá exemplos de como inverter esse quadro. Como no caso de trabalhadores de uma fábrica de janelas que foram dispensados sem direito ao pagamento que lhes era devido. Esses pobres trabalhadores organizaram uma greve pacífica, negando-se a sair da fábrica enquanto não fossem pagos. O Bank of America, novo dono da fábrica e destinatário de 45 bilhões de dólares em ajudas do governo federal, dizia não ter dinheiro para as compensações trabalhistas. No entanto, o mesmo Bank of America gastava milhões em bônus para seus executivos, que claramente não faziam um bom trabalho e estava no olho do derretimento econômico (foi assim que a mídia americana apelidou a crise).

Com ajuda da cobertura da imprensa local, os trabalhadores chamaram atenção da população, que passou a apoiá-los. Com o passar das horas, congressistas também demonstraram apoio aos grevistas, que ganhavam cada vez mais força. Claro que o banco decidiu pagá-los, não por achar que mereciam, mas por querer evitar que a greve virasse modelo para outras classes de trabalhadores.

Cheio de graça, Michael Moore também grava passagens memoráveis que mostram, com certa ironia, a sua indignação diante do que banqueiros e autoridades financeiras conseguiram fazer com a economia americana. Dê uma olhada:

É isso mesmo, Moore pegou um carro de transporte de valores e foi cobrar os bilhões de dólares de volta, para que o povo americano não colaborasse para mais bônus milionários que dirigentes de bancos ganhariam. Não conseguiu pegar uma nota de um dólar sequer, mas não deixa de ser uma cena simbólica do que mais americanos deveriam fazer.

Em “Capitalism”, o cineasta mostra que a crise era previsível. E que, mais do que isso, outras virão se a América não tiver uma regulação financeira mais forte, como analistas econômicos dizem ser no Brasil. De acordo com Moore, a bolsa de valores de Nova Iorque tornou-se um grande cassino cheio de apostadores. Isso tem que mudar, e ele conta com os espectadores do filme para que essa mudança comece já.

Crítica: “A Tirania do Petróleo”, de Antonia Juhasz

Imagine que você pudesse ter um dossiê completo de como nasceu e é atualmente o setor de petróleo nos Estados Unidos, e por conseguinte em quase todo o mundo. Foi isso o que Antonia Juhasz conseguiu fazer ao escrever “A Tirania do Petróleo”, publicado no Brasil pela Editora Ediouro.

"A Tirania do Petróleo", de Antonia Juhasz

Capa de "A Tirania do Petróleo"

Quando o meu exemplar foi enviado pela Ediouro, eu fiquei em dúvida se ele capturaria a minha atenção. No entanto, tive uma grata surpresa com o texto de Antonia Juhasz. Ela não se utiliza daquela linguagem intelectual e rebuscada que muitas vezes mais atrapalha do que ajuda na comunicação. Tenho algumas restrições com relação à tradução de Carlos Zslak, mas de modo geral é uma publicação inteligível.

O livro começa, como já poderíamos esperar, pelo começo da história do petróleo nos EUA. Na segunda metade do século 19, o empreendedor John Rockefeller funda a Standard Oil of New Jersey, que viria a ser um dos maiores conglomerados do mundo. E faria de Rockefeller o homem mais rico de todos os tempos. A título de curiosidade, a fortuna dele valeria hoje cerca de trezentos bilhões de dólares (ou sete vezes a fortuna de Bill Gates).

Dissoluções e fusões

Dois momentos do livro são, em definitivo, os mais interessantes. O primeiro deles é quando Antonia Juhasz descreve o processo de diluição da Standard Oil, devido ao monopólio que a empresa de Rockefeller estava se tornando. Isso mesmo, naquela época – início do século 20 – o governo e os cidadãos dos Estados Unidos já se preocupavam com a excessiva concentração de mercado. Como resultado da ação governamental, a Standard se tornou trinta e seis empresas distintas, mas com desejos muito semelhantes.

Passam-se os anos, as décadas, até que chegamos ao segundo momento que mais me interessou do livro: o reagrupamento das empresas que um dia foram a Standard Oil. Assim como tem acontecido em alguns setores econômicos brasileiros nos últimos anos, nos Estados Unidos as empresas petrolíferas voltaram a se unir. Em dado momento, a onda de fusões e compras entre grandes petrolíferas teve início.

Hoje em dia elas são conhecidas como as Big Oil. A maior delas é a ExxonMobil, fusão da Exxon com a Mobil que teve lucro líquido de quarenta bilhões de dólares no ano passado. Isso mesmo, o lucro foi de quarenta bilhões. O faturamento passou dos quatrocentos bilhões. Também temos a Shell, a BP, a Chevron/Texaco, a ConocoPhilips e a Total consideradas como Big Oil. Todas são donas de verdadeiros impérios do petróleo, e controlam mais de dez por centro da oferta mundial da commodity.

Juhasz conhece muitos detalhes da negociata por trás desses negócios, que permitiram que algo próximo da inicial Standard Oil ressurgisse. Segundo a autora, essas empresas com lucros fabulosos têm poder de decisão sobre muitos aspectos da vida dos norte-americanos. Elas conseguem comprar votos, proibir leis e fazer daquele país o que bem entendem. Por isso mesmo a autora defende que elas sejam diluídas novamente.

A história de como essas empresas se articularam para fazer dos Estados Unidos um grande campo de extração de petróleo é impressionante. Antonia Juhasz conseguiu documentos e detalhes até então nunca conhecidos, porque a indústria de petróleo mantém seus assuntos internos protegidos de uma tal forma que só os que participam e compartilham interesses com as grandes corporações têm acesso a alguns deles.

Areias betuminosas

Em “A Tirania do Petróleo” não é falado somente da face econômica da indústria norte-americana de petróleo. Antonia Juhasz também explica o funcionamento de alguns aspectos mais técnicos das petrolíferas. Ela apresenta seus leitores a dados muito curiosos, como o da extração de petróleo a partir de areia.

Nunca tinha ouvido falar nas areias betuminosas, mas elas são a mais nova esperança da indústria de petróleo para que a matéria-prima não se acabe nos próximos vinte ou trinta anos. Em Alberta, no Canadá, as corporações descobriram um tipo de areia que contém betume, um óleo muito grosso que, quando refinado, se transforma em óleo cru.

O processo de extração desse óleo não é tão fácil quanto poderíamos imaginar. Primeiro é preciso revirar o solo do local, em busca da areia de melhor qualidade. Depois começam os processos químicos, que eu não saberia explicar como funcionam, mas que, no fim do processo, fazem com que apenas dez por cento da areia “processada” vire o óleo cru. O resto é descartado, muitas vezes de forma descuidada.

Destruição: extração de óleo nas areias betuminosas de Alberta. (Wikipedia)

Destruição: extração de óleo nas areias betuminosas de Alberta, Canadá. (Wikipedia)

Incrível, não? Mais incríveis são imagens da destruição que a Exxon e suas irmãs menores estão causando às areias de Athabasca, em Alberta. Máquinas gigantes são necessárias para fazer a extração da areia e do óleo. Pelo caminho dos campos de extração, as empresas vão construindo grandes tanques nos quais os químicos usados durante o processo são despejados. Alguns desses tanques são tão grandes que podem ser vistos do espaço, e a magnitude é tamanha que algumas petrolíferas já consideram a construção de usinas nucleares próximas aos campos de extração, para que seja gerada energia suficiente para extração do óleo das areias betuminosas.

Conclusão

Infelizmente “A Tirania do Petróleo” é muito focado nos Estados Unidos. Portanto, fica difícil fazer comparações entre o modelo do setor de petróleo americano e o brasileiro, que é basicamente monopolista. Seria interessante que a Ediouro contratasse algum especialista brasileiro em petróleo para escrever um posfácio, no qual faça considerações sobre a indústria do petróleo nacional.

Ainda assim, é um livro muito bom e altamente recomendado, não só para quem tem interesse no setor de petróleo, mas também para quem gosta de atualidades e curiosidades. Nos últimos capítulos, por exemplo, Antonia Juhasz prova por A mais B que a guerra no Iraque foi por petróleo. E inclusive já nos alerta para o próximo alvo das Big Oil na guerra por petróleo, que você só vai conhecer se comprar o livro.

“A Tirania do Petróleo”

Explicando a crise econômica

Ninguém tem dúvidas de que o mundo está imerso numa crise econômica. Aliás, quase ninguém, excluindo o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que já ousou chamar a crise de “marolinha”. Não, não, excelentíssimo presidente, essa crise já está a um passo de se tornar um tsunami. Nos Estados Unidos, onde foi originada, atingiu patamares que já permitem compará-la à Grande Depressão de 1929.

No entanto, enquanto algumas pessoas (em especial os banqueiros americanos; os brasileiros riem à toa) choram, outras enxergam oportunidades. É o caso de Jonathan Jarvis, estudante de Los Angeles. Como designer, ele criou umas das melhores animações para mostrar como chegamos a essa crise internacional. O trabalho foi muito bem executado, e por isso mesmo é um vídeo que está obtendo enorme audiência na internet. A versão para YouTube já teve quase meio milhão de visitas, enquanto que a versão publicada no Vimeo tem 20 mil espectadores diários.

Abaixo está o vídeo The Crisis of Credit Visualized. É em inglês, mas de fácil compreensão. Você deveria assisti-lo.

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América de olho em Paris Hilton

George Bush e Vladimir Putin na Alemanha, em encontro do G8 - Foto: Getty ImagesA última semana foi muito movimentada no campo político. No Brasil, nosso respeitado Congresso não sabia se tentava descobrir a verdade do caso Renan Calheiros ou se atentava para as vantagens que o irmão do presidente pleiteava apenas por ser “o irmão do presidente”. Presidente, por sinal, que estava na Alemanha, a convite do G-8 para discutir o meio ambiente. Divergências entre EUA e Rússia à parte, o encontro foi muito importante por solidificar a presença brasileira em questões de âmbito global (México, China, Ã?ndia e alguns outros países também foram convidados).

Um fato curioso é que, nos Estados Unidos, o encontro dos países mais importantes e seus convidados foi transmitido ao vivo, devido à sua óbvia importância. No entanto, não na íntegra. Isso porque as principais emissoras do país interromperam a transmissão desse evento para fazer a cobertura completa de um fato extremamente importante: a ida de Paris Hilton até o tribunal, e sua conseqüente saída aos prantos e no carro do xerife.

Paris Hilton chora ao sair do tribunalDeve-se ficar claro que essa visibilidade da moça na América não é de hoje. O jornal The Times informou que havia mais de 150 jornalistas e fotógrafos à espera de Paris Hilton, no mesmo momento em que a chanceler alemã Angela Merkel discursava e jogava um balde de água fria nos países emergentes ao dizer que não será tão cedo que o G-8 terá novos membros permanentes (China e Brasil querem muito essa cadeira).

Impressionante perceber como a imprensa, em certos casos, opta pelo imediatismo e esquece a hierarquia noticiosa. De um lado, o G-8, e do outro a herdeira dos Hilton fazendo o que sabe fazer melhor: criando polêmicas infundadas. Impressiona também perceber que, na grande democracia global — leia-se Estados Unidos —, a opinião pública ficou calada diante dessa inversão de valores. O mesmo se reflete no Brasil, onde os menos informados ignoram diversas movimentações políticas evidentemente mal intencionadas, mas não deixam de comentar a roupa de baixo da atriz famosa, que por ventura foi fotografada.