O resultado pouco importa

Nessa história de controle social da mídia, o ex-ministro Franklin Martins rodou. Comandante-em-chefe da pasta da Comunicação Social até dezembro, Martins mostrou-se um grande proponente de uma forma pela qual a sociedade poderia exercer poder maior sobre os meios de comunicação. Paulo Bernardo, o ministro das Comunicações atual, avisou nessa semana que o projeto foi colocado de lado em definitivo.

Logo que o controle social da mídia entrou em pauta, os grandes grupos de comunicação fizeram ataques violentos a ele. A Folha de São Paulo não perdeu tempo: na sua artilharia, o argumento de que o governo tentaria censurar a imprensa. A Globo, ainda que de forma silenciosa, deu a entender que também faria coro contra o tal controle caso fosse necessário. Parece que nenhum deles entendeu de fato como a coisa ia funcionar.

Na Inglaterra existe faz tempo — atende pelo nome de Ofcom. Em vez de o governo assumir a posição de mediador no debate espinhoso sobre o controle social da mídia, os próprios veículos de comunicação se agremiaram. Resultado disso é um órgão independente e tido como suprapartidário, que tem autorização para fiscalizar e punir os meios de comunicação quando essa atitude se faz necessária. Parece que funcionou. A BBC é tradicional exemplo de como a mídia britânica pode oferecer conteúdo de qualidade excepcional.

Em comparação, os americanos espinafram qualquer tentativa de controle social da mídia. A livre iniciativa, que o American way of life tanto defende, rechaça o assunto. As empresas de comunicação podem dizer o que bem quiserem a qualquer momento, e não raro saem impunes quando lesam a informação, o bem mais precioso que a mídia pode oferecer. A liberdade em demasia vale tanto para veículos cujo conteúdo é reconhecidamente bom (caso da revista New Yorker) como para aqueles que deixam a desejar (a Fox News é um exemplo — não se passa um dia sequer sem que as reportagens ideologicamente direcionadas ataquem o governo do presidente Obama).

Cá no Brasil nós estamos num limbo quando o controle social da mídia entra em pauta. Franklin bem que tentou trazer a discussão à tona, mas não deu certo: à época da primeira Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), nenhum grande grupo enviou participantes para discutir o assunto. Simplesmente se abstiveram de explicar seus pontos de vista para o público. E sempre que algum político volta a falar do controle social, lá vêm os editoriais inflamados destruindo cada possível aspecto positivo desse instrumento.

Enquanto isso, o público segue assistindo, lendo e ouvindo reportagens terríveis, mal apuradas, com erros de informação mais do que grotescos. Sem falar nos excessos amplamente conhecidos quando a opinião é fornecida travestida de fato. Se não vamos aprovar o controle social da mídia no fim das contas é algo que pouco importa. Para uma democracia jovem como a brasileira, está faltando discussão.

O JB morreu

por Hugo Studart

Caros amigos,

O JB faleceu. Para aqueles que ainda não sabem, o Jornal do Brasil circulou pela última vez há alguns dias, na terça feira, 31 de agosto de 2010.

Sonhei ser jornalista por conta do JB. Adolescente, chegava do colégio na hora do almoço e, invariavelmente, esticava os olhos para a primeira página do jornal aberta por inteira na banca da Afrânio de Mello Franco, esquina com Ataulfo de Paiva, no Rio. Quando tinha notícia importante, dava um jeito e comprava para devorá-lo. Quando não tinha, desejava-o. Era o melhor jornal do Brasil, sem dúvida, inovador, e mais relevante do que hoje são a Folha e o Globo juntos.

Eu amava o JB. Não, era paixão, obsessão. Quis ser jornalista por conta do JB. Na universidade, dizia a todos que um dia trabalharia no JB. Acalentava até um plano estratégico: conquistar a honra de ser repórter do JB em até cinco anos depois de formado. Quis o Destino que fosse meu primeiro emprego, aos 21 anos. Graças ao saudoso mestre JB Lemos, o primeiro editor que concedeu atenção àquele garoto recém formado.

O meu JB, em verdade, faleceu há bem uma década, quando arrendado pelo Nélson Tanure. Triste destino, cair nas mãos do Tanure. Findou tão irrelevante que há muito que já não faz mais falta. Sua morte foi muito pouco notada, quase nada comentada. Choro pelo JB. Choro pelo jornalismo. Choro de emoção pela brilhante crónica que acabo de ler do Joaquim Ferreira dos Santos. Retransmito, caros amigos, alunos e irmãos, o réquiem mais bonito que um grande jornal poderia merecer. Eis um grande requiém para se lembrarem daquilo que um dia foi um grande jornal.

Hugo Studart é professor do curso de Jornalismo da Faculdade Cásper Líbero.

As retrospectivas de 2009 na web

Falta pouco. Em mais algumas horas nós damos tchau ao ano de 2009 e saudamos a chegada de 2010. Nesse momento você deve estar aproveitando seu recesso, sem pensar em trabalho. Diferentemente do que foram as redações das empresas jornalísticas nas últimas semanas, que trabalharam a todo vapor para resumir tudo o que aconteceu nesses mais de trezentos dias. Sim, falo das retrospectivas.

A internet não poderia ter outro tratamento. Alguns grupos de comunicação investiram bastante para proporcionar ao usuário uma experiência bacana na hora de revisitar os fatos mais importantes de 2009. Outros ficaram no básico, mas mesmo assim deram espaço para as retrospectivas em seus sites.

Confira abaixo as retrospectivas que foram apresentadas por alguns dos principais sites jornalísticos e jornais virtuais, devidamente comentadas por mim. Clique nas capturas de tela para ampliá-las.

G1

A retrospectiva do G1, presença noticiosa mais importante do Grupo Globo na internet, foi a que mais me agradou. Em vez de texto, o site apostou em conteúdo multimídia, principalmente em vídeo. A retrospectiva foi dividida por assuntos afins, de modo que o usuário tem uma noção de linearidade entre cada fato ocorrido em 2009.

Eu gosto das retrospectivas em vídeo porque é preciso ter uma narrativa bastante interessante para prender a atenção da audiência, objetivo que o G1 cumpriu muito bem. Além disso, no rodapé do player aparecem links que permitem que o usuário vá diretamente para aquela notícia e possa ler novamente.

R7

Na cola do G1 vem o R7, atualmente o segundo site de notícias do Brasil. O veículo da Rede Record nasceu há alguns meses, então não tem como linkar para si mesmo na hora de mostrar os fatos mais relevantes de 2009. Optaram por um infográfico em texto e imagem, mas que pode conter vídeo (principalmente nos últimos meses do ano, quando o R7 já tinha iniciado suas operações).

Globo Online

O site do jornal carioca O Globo aproveitou a retrospectiva para fazer uma campanha institucional. Logo que o usuário abre a página especial, se depara com um mosaico no qual pode escolher uma das imagens e visualizar o conteúdo que os jornalistas do veículo produziram.

Interessante mesmo é a possibilidade de enviar mensagens para o jornal com a perspectiva para 2010. Vários usuários já participaram, inclusive com vídeos publicados no YouTube seguidos de um recado otimista para o próximo ano.

Folha Online

Para que investir algo em algo legal quando você pode fazer mais do mesmo? Provavelmente foi o que a chefia de redação da Folha Online pensou quando optou por fazer uma retrospectiva completamente em texto (para não ser injusto, também há algumas fotos).

Matérias enormes foram publicadas no site do jornal, na esperança de que algum usuário lesse. Os jornalistas do veículo conseguiram ignorar completamente a tendência de fazer textos mais enxutos para web, escrevendo justamente o contrário: reportagens extensas e chatas de ler na tela do computador.

Último Segundo

Não tenho o hábito de acessar o canal de notícias do iG por um motivo muito simples: o design me desagrada profundamente. Ainda assim fui lá dar uma olhada na retrospectiva. Seguiram a receita da Folha Online e produziram muito texto, porém sem dar destaque à multimídia. O máximo, pelo que pude ver, foram slideshows com no melhor estilo “fatos & fotos”.

Estadão.com.br

Não entendi muito bem qual foi a proposta do Estadão.com.br ao permitir que seus usuários votassem nos fatos mais importantes dos anos 2000, que vão desde 2000 a 2009. A apresentação dos resultados foi em forma de mosaico, no qual você pode descobrir quem é o blogueiro mais votado (no caso, a Rosana Hermann, que atualmente mantém o blog Querido Leitor dentro do portal R7) ou a empresa da década (Google, é claro).

Existe uma forma cem por cento correta de escrever iPod touch/Touch?

Tinha quer culpa da Apple

Tinha que ser culpa da Apple

Ontem o Rodrigo Ghedin iniciou no blog uma discussão muito interessante sobre como a nova mídia deve escrever nomes de empresas, produtos e marcas. Tudo começou com uma conversa por Messenger, na qual o Ghedin dizia que é errado escrever “iPod Touch”, conforme eu faço em meus posts para o Tecnoblog News. Ele diz que a Apple, fabricante do produto, sempre escreveu “iPod touch” (com o tê minúsculo, como na página do produto) em seus comunicados e anúncios, e que, portanto, essa seria a forma correta de escrever.

Eu fui consultar os dois manuais de redação que eu tenho, um do Estadão e outro da Folha de São Paulo. Na esperança de ter uma resposta, acabei encontrando mais dúvidas, visto que nenhum dos manuais fala explicitamente de casos semelhantes ao do “iPod Touch”. No máximo, uma citação ou outra sobre nomes próprios, mas nada muito extenso ou determinante.

O manual de redação do Estado diz o seguinte na página 191, sobre nomes de institutos, órgãos, entidades, empresas e produtos: “Os nomes de órgãos, entidades e institutos públicos ou oficiais deverão ser adaptados às normas ortográficas vigentes”. Entre os exemplos dados, temos Butantã (e não Butantan, com “an” no final) e Fundação Osvaldo Cruz (sem o “w” em “Osvaldo”). Nada, no entanto, chega sequer próximo do aparelho da Apple, o que complica a discussão.

Penso que, nesses casos em que há dúvida, fica a critério do redator (ou do veículo, caso trabalhe em um) decidir qual grafia adotar. É evidente que a empresa faz um esforço criativo e econômico para conceber os nomes dos produtos, inclusive com agências especializadas na criação de marcas, mas ainda assim nenhum veículo é obrigado a seguir o que a cartilha de publicidade da empresa em questão determina.

Pelo que me lembro dos tempos de alfabetização, nomes próprios prevêem suas primeiras letras iniciadas em caixa alta. A pergunta que eu faço: até que ponto “iPod Touch” é um nome próprio? Do meu ponto de vista, é sim um nome próprio e merece ter sua segunda palavra iniciada por maiúscula, ainda que a empresa detentora da marca pense o contrário.

Outro exercício necessário a quem escreve é ponderar se o nome do produto vai causar confusão ou estranheza a quem lê o texto. Uma pessoa que lê “A Apple anunciou hoje um iPod touch com sistema iPhone OS” vai entender que o nome do produto é “iPod touch”? Ou vai pensar que “iPod” é o produto em si e o “touch” é algum complemento, sem descobrir qual? No entanto, ao escrever “A Apple anunciou hoje um iPod Touch com sistema iPhone OS”, fica evidente que o nome completo do produto é “iPod Touch”. Ou não?

A decisão da empresa de veicular o nome do produto com minúsculas em seus anúncios é soberana, pois é questão de marca. Mas o redator, mais do que preocupado com a marca, está preocupado com que o leitor compreenda completamente a mensagem. Se for desnecessário capitalizar uma letra ou outra, excelente; na maioria das vezes isso não será preciso. E quando for necessário, que se faça a capitalização.

Como não existem exemplos (eu não consegui lembrar de um sequer) de marcas e produtos brasileiros que possuam a mesma dinâmica do “iPod Touch”, falta-nos material para consulta e referências. Nesse caso, o melhor é deixar que o autor do texto opte pelo que acha melhor.

Eu devolvo a pergunta para os comentaristas do Memórias: qual forma (touch ou Touch) vocês preferem e por que motivo?

Linkar não dói. Comunicar erros também não

Em 26 de dezembro escrevi um post sobre o uso que alguns sites de notícias fazem de reportagens compradas. Dizia nele que de nada adianta vários portais publicarem a mesma matéria, pois o usuário acabaria com a sensação de mesmice. Conclui fazendo uma observação: “Perceba como a Folha Online é relutante em inserir os links para os sites citados”. O Rodrigo Ghedin concordou comigo:

O que me deixa mais puto nem é essa cópia descarada, mas sim o fato da Folha (e outros, como o Terra) jamais linkarem sites/blogs externos. Egoísmo pouco é bobagem, e eles chegam ao cúmulo de escrever a URL, mas sem linkar.

Parece que a Folha percebeu essa indignação de seus usuários (não estou dizendo que foi devido ao meu post que essa conscientização se deu) e faz algum tempo que tenho visto eles colocarem links para blogs que a própria Folha Online mantém e também sites de fora do “sistema” deles. Porém, de vez em quando eles acabam esquecendo. Como nesta matéria, sobre o blog que o autor das tirinhas do Dilbert criou.

Reprodução da Folha, antes

Eles colocaram a url entre parênteses, mas não fizeram o link efetivo. Como o botão “Comunicar erros” está disponível para qualquer leitor, escrevi para eles avisando que não havia link e, menos de 3 minutos após a mensagem ter sido enviada, a url em questão já era clicável.

Reprodução da Folha, depois

Ainda recebi, por email, resposta de um dos editores justificando que “o primeiro link da reportagem estava com um espaço a mais, o que tornou o endereço defeituoso”. Espero que seja isso mesmo.

Portanto, usemos as opções que estes sites nos dão para relatar erros e acrescentar informações às matérias. Falando especificamente da Folha, tenho obtido resultados muito positivos. Já de O Globo nunca obtive qualquer resposta.

[Atualização - 12h55] O erro ocorreu porque esta mesma reportagem foi publicada originalmente no jornal, em 28 de fevereiro (link para assinantes). A Folha impressa tem por hábito quebrar os links para que caibam na diagramação. Ou seja, eles reaproveitaram uma matéria publicada primeiramente para assinantes.