Aviso » Antes de começar o texto, é preciso deixar claro que eu sou fã da série de livros “Harry Potter” e que, portanto, para mim é inevitável fazer comparações entre o roteiro do filme e o que foi originalmente escrito pela J.K. Rowling.
E mais uma coisa: contém spoilers! Leia por sua conta e risco.

Logo no início de “Harry Potter e o Enigma do Príncipe” (“Harry Potter and the Half-Blood Prince”) fica evidente que, sob o comando de David Yates, alguns detalhes importantes foram postos de lado e outros inexpressivos foram transformados em situações importantes. No entanto, é imperdoável perceber que os responsáveis por esse “HP” tenham deixado de lado a (chamemos assim) assinatura musical da série, aquela breve música, muito agradável, que costumava aparecer junto com o título do filme. No “Enigma do Príncipe” há uma trilha sonora bastante sóbria, como poderíamos prever, mas “esquecer” desse pequeno detalhe foi um erro.
Como o roteirista precisava mostrar a que veio, o filme já começa com algo que não estava no livro. Já imaginou Harry Potter preparando-se para pedir para sair com uma garota? Pois é assim que começa. O encontro, no entanto, não acontece, pois Dumbledore aparece para levar Harry à casa de um certo professor, o que faz o filme voltar ao que o livro diz.
A escolha de Jim Broadbent para o professor Slughorn não poderia ser mais acertada. Broadbent parece realmente ter lecionado em uma escola legendária e também parece realmente ter formado um clubinho de alunos preferidos para si, como que para poder gabar-se perante outros bruxos. No entanto, não espere ver o Clube do Slugue no filme. Ele não aparece, embora não haja perdas na história devido a isso.

Infelizmente por acompanhar a série de “Harry Potter” faz tempo, é possível notar que Daniel Radcliffe deixa a desejar como ator. Se antes a falta de expressão era aceitável porque ele ainda era jovem e inexperiente, depois de quatro filmes contracenando com grandes nomes do cinema britânico e mundial era de se esperar que o ator ganhasse em qualidade. Junto a Bonnie Wright, que interpreta Gina Weasley, Daniel faz uma das cenas de beijo mais insossas que provavelmente o cinema já teve. Talvez por timidez ou inexperiência, o beijo, que ocorre na Sala Precisa, não funciona. O diretor do filme deveria ter percebido esse problema e removido a cena do longa (ou feito o casal regravá-la até dar certo).
Ainda falando em beijo, é o apaixonado Rupert Grint, que vive Rony Weasley, quem surpreende. Rupert ganhou conhecimento no assunto e consegue fazer seu papel com relativo sucesso, ainda mais quando precisa colocar em cena o primeiro beijo de seu personagem. As cenas em que Rony bebe acidentalmente a Amortentia, uma poderosa poção do amor, e fica inebriado pela paixão latente são hilárias. E o ator também acertou no tom ao mostrar um Weasley inicialmente “looser” no Quadribol, mas que com o tempo ganha ânimo e acaba por merecer os gritos de “Weasley é nosso rei!” dos alunos da Grifinória.

Outra surpresa agradável é Emma Watson, a Hermione Granger. Assim como sua personagem, Emma deve ter estudado muito para poder mostrar na telona uma Hermione mais madura, porém emotiva e claramente apaixonada por Rony, sem descambar para a pieguice. Espero vê-la em outros bons papéis no futuro, porque a atriz tem talento.
Não ficou muito claro o motivo de terem mantido o título do filme como “Harry Potter e o Enigma do Príncipe”. Explico: na publicação original há uma grande preocupação com o livro de Poções com instruções alternativas para o preparo das misturas e também com dicas para encantamentos que o trio protagonista ainda desconhece. Hermione fica aturdida com a possibilidade de algum aluno, ainda que seu melhor amigo, seja melhor que ela em alguma matéria. Por isso faz investidas graves para que tentem descobrir a origem do tal livro, sem grande sucesso. Mas o mesmo não acontece no filme, que trata do livro de Poções somente nos primeiros minutos e também no final, quando Snape revela ser o Príncipe Mestiço. São raros os momentos em que o mote para o título do livro tem a devida atenção.
Que Dumbledore está ficando velho, isso é inegável. Mas o roteiro exagera ao mudar o comportamento do diretor. Não me lembro de nenhum dos outros livros e filmes vê-lo perguntar a Harry não uma, mas duas vezes sobre garotas. O diretor de Hogwarts também comenta a rala barba de Harry, numa demonstração de intimidade incomum para o mago. Ele e o pupilo se tratavam com respeito e cortesia, mas não de forma tão profundo sobre assuntos particulares a Harry. Seriam sinais de que Dumbledore está ficando gagá?

A passagem em que Harry Potter e o Alvo Dumbledore vão ao litoral da Inglaterra em busca da horcrux é particularmente perturbadora. Como o filme usa durante todo o tempo uma fotografia bastante própria, com tons de cor aparentemente desgastados, falta algo que torne as cenas dessa parte do filme mais aterrorizantes. O ritmo com que os eventos acontecem também é descabido. Tudo acontece muito rápido: com uma simples aparatação, estão na rocha; de repente estão no portão de entrada; de repente estão navegando no lago cheio de Inferi; de repente Dumbledore está tomando a poção contida na pia; de repente Harry está sendo atacado; e por fim, puf!, estão de volta a Hogwarts.
Faltou dar clima à situação, que é crucial para mostrar até que ponto Voldemort vai para se consolidar como o pior e mais poderoso bruxo de todos os tempos. Uma vez que tudo acontece sem ritmo e sem a gravidade que mereciam, a impressão que temos é de é um momento desimportante, gravado por burocracia, quando é justamente o contrário: os momentos finais de Dumbledore são vitais para o que será desencadeado no sétimo e oitavo filmes (sim, serão dois).
Sobre o final… Que final? Nessa parte, que também é fundamental porque é a morte de um dos personagens mais importantes da saga, muito do livro foi mudado. Por exemplo, os membros remanescentes da Armada de Dumbledore não ficam a postos em Hogwarts, como Harry pede, e detêm os muitos Comensais da Morte. Até porque é um grupelho de Comensais que vai ao castelo, o que tira a grandiosidade do momento. Quem esperava ver uma guerra respeitável nesse filme, com extravagantes efeitos especiais e muitos figurantes se decepciona bastante: os Comensais não enfrentam dificuldade alguma nem para entrar, muito menos para sair da escola de magia.

O roteirista também alterou um pouco da participação de Snape, vivido pelo impecável Alan Rickman. Nos momentos finais de Dumbledore no livro, um Harry Potter coberto pela capa da invisibilidade é paralisado pelo diretor e obrigado a ver Draco Malfoy ameaçar o bruxo, até que Snape vêm e executa Dumbledore. Já no filme Snape não só vê Potter na torre, escondido na parte de baixo da aparelhagem de astronomia, como vai pedir ao herói que fique quieto. Depois sobe, encara Dumbledore e o assassina com um simples “Avada Kedavra”.
Dumbledore despenca em queda livre, e fica por isso mesmo. Alguns alunos se reúnem em volta do professor (não me pergunte de onde eles vieram, pois a passagem estava completamente deserta segundos antes) e lá ficam, em silêncio. Em dado momento, liderados pela professora McGonagall, todos apontam suas varinhas para o céu a fim de desfazer a Marca Negra. Só.
Não há comoção, quase não há choros e certamente não há o respeito devido ao grande bruxo Dumbledore. Aqueles que, como eu, forem ver o filme na expectativa de assistir ao funeral do diretor também irão se decepcionar. Não há sequer uma menção sobre Dumbledore ter sido sepultado ou não, o que deixa a questão em aberto para ser abordada em um próximo filme.

Há, no entanto, risos da insuportável Bellatrix Lestrange. Não poderia deixar de comentar como Helena Bonham Carter incorpora perfeitamente a megera que assassinou o padrinho de Harry. Ela é um show à parte quando, dentro de Hogwarts, detona completamente o Salão Principal. Outra cena deliciosamente ruim é quando, no matagal próximo à Toca, Harry persegue Bellatrix, que está risonha e cantarolando “Eu matei Sirius Black! Eu matei Sirius Black”. Uma louca agradável de ser vista cometendo suas atrocidades.
“Harry Potter e o Enigma do Príncipe” deve ser assistido porque transforma em imagens boas passagens do texto de Rowling, mas aparentemente deixa de fora justamente o mais importante: a busca pelo horcrux, a morte de Dumbledore e o consequentemente funeral do diretor. Os momentos de maior emoção foram burramente negligenciados pelo roteiro, o que é uma pena.

Harry Potter e as Relíquias da Morte » Para saber como a saga de Harry Potter termina, clique aqui e conheça o final de “Harry Potter e as Relíquias da Morte”.




Spoilers! » Este texto pode conter detalhes da história, inclusive para quem ainda não leu 