Resenha: Jornal Nacional, Modo de Fazer

Capa de "Jornal Nacional: Modo de Fazer"Em primeiro de setembro desse ano o principal telejornal do país celebrou seus quarenta anos no ar. Sim, estou falando do “Jornal Nacional”, que atualmente é apresentado por Fátima Bernardes e William Bonner. Tendo em vista a comemoração, Bonner aproveitou para escrever um livro que mostra um pouco de como é o processo de feitura do JN. Essa é a proposta de “Jornal Nacional: Modo de Fazer“.

Longe de ser um manual de redação mais completo, como aqueles de O Globo ou da Folha de São Paulo, “Modo de Fazer” fala de decisões mais práticas que o editor-chefe William Bonner e seus superiores já tiveram que tomar, visando ao cumprimento do objetivo primordial do JN. Anote aí:  mostrar o que de mais importante aconteceu no Brasil e no mundo naquele dia, com isenção, pluralidade, clareza e correção. Bonner martela esse objetivo várias (muitas!) vezes durante o livro.

O que eu mais gostei em “Jornal Nacional: Modo de Fazer” foram as histórias das edições atípicas do telejornal. Como naquela fatídica sexta-feira, quando o Jornal Nacional terminou e Bonner, com sua equipe, pegou o primeiro avião rumo a Roma. Horas depois, quando chegavam à capital italiana, teriam que fazer a cobertura histórica da morte do papa João Paulo 2º (vídeo aqui).

Outra história das mais interessantes foi quando São Paulo deu lugar, no ano de 2006, aos atentados praticamente terroristas organizados pelo PCC. Bonner confessa no livro que percebeu que seria necessário apresentar o telejornal da capital paulista no fim da tarde. Numa verdadeira operação de guerra, lá se foi a equipe dele rumo a São Paulo, de onde ele apresentaria o JN. Detalhe: sentado em uma banqueta, numa laje do prédio onde meses depois seria inaugurada a nova sede da TV Globo em São Paulo (vídeo aqui).

Não espere encontrar em “Jornal Nacional: Modo de Fazer” uma obra prima literária. Nem é a isso que o livro se propõe. Bonner escreve de forma muito simples e fluida, como se estivesse conversando com o leitor. Mais ou menos como os blogs funcionam, com uma linguagem bem mais próxima do coloquial que aquela adotada pelos jornalões.

Vale a pena para estudantes de Jornalismo como eu e para quem tem o simples interesse de saber como o principal telejornal do país funciona. Também vale a pena para quem quer saber em que circunstâncias William Bonner gritou “Puta que pariu!” na frente de um presidente eleito. :P

“Jornal Nacional: Modo de Fazer”

JN estreia novo cenário hitech

Agora há pouco, às 20h15 (como de costume), o Jornal Nacional estreou finalmente o seu novo cenário, que faz parte das comemorações dos quarenta anos do jornalístico. Antes da tradicional escalada, Fátima Bernardes mostrou como é a nova redação da Globo no Jardim Botânico. Na bancada suspensa, William Bonner foi o responsável por apresentar aos milhões de brasileiros que acompanham o JN o novo cenário.

JN: Bonner mostra globo giratório.

JN: Bonner mostra globo giratório.

À primeira vista, tudo ficou muito bonito. Mas quando vemos o cenário “em funcionamento”, alguns problemas aparecem. O principal deles é o globo azul que fica girando atrás dos apresentadores, substituindo um outro mapa mundi, que se revelava quando a câmera geral focalizava de um ângulo muito específico. Qual o problema do novo globo? Bem, ele gira. E mesmo que o movimento seja muito devagar, poderá levar algumas pessoas a prestar mais atenção ao globo do que a notícia em si. Há alguns anos atrás o SBT já tinha tentado a mesma coisa, mas com a Ana Paula Padrão. Depois de um tempo a diretoria de jornalismo da emissora desistiu de dar movimento ao globo; acho que no JN não será diferente. Por mais que o efeito seja bonito, cansa rápido.

JN: painel feito de vários televisores ao fundo.

JN: painel feito de vários televisores ao fundo.

JN: nova bancada.

JN: nova bancada.

Gostei do painel, montado com vários monitores de muitas polegadas, ao fundo da redação. Em vez da arte no chroma key atrás dos apresentadores, será nessa grande tela que as falas de Bonner e Fátima serão contextualizadas, com bandeiras de países e outros efeitos gráficos. Ficou muito bacana, embora de longe a faixa de televisores fique às vezes pequena demais.

Outra coisa que poderá incomodar os telespectadores são as vinhetas que mostram de onde aquela notícia em questão vem. Por exemplo, quando se tratar de uma matéria vinda de Nova Iorque, mostrará um globo terrestre centralizado no Brasil que brevemente se desloca para os Estados Unidos. Embora dure poucos segundos, também cansará o espectador do JN. Sem falar que ficou com cara de iMovie ’09, aplicativo de edição de vídeos da Apple com mapas muito similares.

Por último, o GC também ficou no mínimo esquisito. Nesse caso podemos levar em conta que ainda não nos acostumamos com a forma como o nome e a função das pessoas que aparecem na tela são apresentadas. Mas eu tenho a impressão de que o movimento em 3D está acentuado demais; poderia ser ou mais devagar, ou menos acentuado.

O novo cenário do Jornal Nacional é lindo e high tech, como a emissora já havia dito que seria. Mas precisa realizar alguns ajustes.

E aí, o que você achou dos novos cenário e bancada do JN? Agradou?

[Atualização às 21:30] Antes que me esqueça: o logo repaginado do Jornal Nacional ficou com cara de web 2.0. Se isso é bom ou ruim, deixo por sua conta.

Guerra no Jornalismo: Jornal da Record responde Globo

No Jornal Nacional de ontem, a TV Globo mostrou de forma insistente e demorada as acusações do Ministério Público de SP contra Edir Macedo, líder da Igreja Universal e dono da TV Record. Hoje foi a vez da Record responder.

Durante a programação da emissora, apresentadores alertavam para as respostas que a Igreja Universal daria durante o Jornal da Record. Na internet, o próprio Macedo anunciou que a resposta viria, através da conta dele no Twitter.

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Às 19h45 em ponto, lá estavam Celso Freitas e Ana Paula Padrão a fazer a escalada do telejornal. Para quem esperava algum destaque às acusações, surpresa: o assunto Igreja Universal só apareceu no fim, quando Padrão falou dos “interesses que podem estar por trás da notícia”.

Quando deu oito e quinze, o Jornal Nacional começou, enquanto a Record passava reportagem que nada tinha a ver com o assunto. Voltaram a mostrar esquema com fotos e nomes de envolvidos na suposta quadrilha. Também disseram que o dinheiro arrecadado pela Igreja Universal tinha outro destino, as empresas de comunicação de Edir Macedo. De modo geral, um resumo do que já tinha sido apresentado no dia anterior.

No terceiro bloco do Jornal da Record, a resposta finalmente apareceu. “O crescimento da Rede Record nos últimos anos foi impressionante”, iniciou Ana Paula Padrão às 20h20. Foram minutos de acusações à TV Globo e à família Marinho, que segundo a reportagem utilizaria a emissora para seus interesses particulares.

Mostraram que o tempo da reportagem feita pela Globo sobre as acusações à Universal tinha sido desproporcional ao dado pelas outras principais emissoras (conforme eu disse em outro post). Lúcio Sturm, um ex-global (assim como muitos funcionários da TV Record), foi o responsável pela reportagem sobre a Globo.

Tempo de reportagens sobre Universal em cada emissora.

Tempo de reportagens sobre Universal em cada emissora. (TV Record/Fonte: Gregori Pavan)

Numa jogada de mestre, o Jornal da Record reproduziu o direito de resposta de Leonel Brizola em pleno Jornal Nacional, feito há muito anos. Também utilizaram diversas imagens do documenário “Muito Além de Cidadão Kane” (você encontra no YouTube), que se propõe a contar as falcatruas da emissora carioca e, em tese, estaria proibido de ser veiculado no país.

Uma das hipóteses levantadas pela Record foi a ameaça que a Globo sente de perder seu “monopólio de comunicação”, o que não é uma completa verdade. Se a própria Record comemora a queda na audiência da Globo e sua própria ascensão, é sinal de que o dito “monopólio” já não existe mais. Temos, aí sim, dois grandes players brigando. E, nesse caso, vale aquele ditado que diz “que vença o melhor”.

Após a reportagem sobre a TV Globo, o Jornal da Record falou das ações sociais feitas pela IURD. De fato existem, mas em que proporção ao valor que é arrecadado pelo grupo? Essa pergunta ficou sem resposta. Macedo também não respondeu como conseguiu enriquecer tanto durante esses anos, se tornando dono de mais de dois bilhões de reais.

A reportagem-reposta do Jornal da Record foi feita à altura da reportagem do Jornal Nacional. A diferença é que o JN se utilizou de uma acusação do Ministério Público tornada pública ontem. Ou seja, notícia. Enquanto isso, o Jornal da Record usou imagens de arquivo para relembrar acusações antigas à Vênus Platinada, que não estão sob investigação atualmente.

Será que a guerra no jornalismo para por aqui? Façam suas apostas.

Outra Opinião I » Micael Silva, que já escreveu por aqui, deixou registrado o que ele pensa sobre a guerra entre Rede Record e Rede Globo no Gengibre (em áudio).

Outra Opinião II » Gregori Pavan comentou a guerra: “Achei que foi uma boa resposta, mostrou verdades que são a todo custo escodidas pela Rede Globo, mostrou que houve um excesso por parte da TV Globo, e um uso indevido da informação.”

Globo bate em Edir Macedo

Assim que os primeiros sites de notícias brasileiros começaram com suas manchetes dizendo que o Ministério Público de São Paulo havia feito denúncia contra Edir Macedo, líder da Igreja Universal e dono da TV Record, já era de se esperar que um tratamento todo especial do assunto fosse dado pela Rede Globo de Televisão. Não foi diferente.

Na escalada (as manchetes, antes da vinheta de abertura) do Jornal Nacional de ontem, Edir Macedo e a Universal foram os destaques da noite. E logo que o telejornal começou, deu para perceber que a artilharia da emissora da Vênus Platinada seria pesada.

Foram quase dez minutos nos quais cada aspecto das denúncias do MP-SP foi tratado pelos repórteres do JN. Um dossiê completo dos negócios (muito suspeitos, por sinal) da Igreja Universal foi exibido para todo o Brasil, com imagens de arquivo e detalhes mínimos que, se fosse outra instituição, não seriam levados tão a sério.

Um dos momentos mais tensos da reportagem cheia de arte gráfica foi quando exibiram esquema do trajeto feito pelo dinheiro dos fiéis da Igreja Universal, que começava nos templos, passava por paraísos fiscais e depois retornava ao Brasil em forma de empréstimos para pessoas ligadas a Macedo. A tensão fica por conta de uma das empresas que receberia o dinheiro (segundo o Ministério Público):

Rede Record entre os supostos beneficiários.

Rede Record entre os supostos beneficiários.

Isso mesmo, a Rede Record. Não é preciso ser um gênio da Comunicação para perceber que o tamanho da fonte em que “REDE RECORD” está escrito foi claramente desproporcional ao resto do texto. Não bastasse isso, repare que “aeronaves” e “imóveis” recebem apenas um maço de cédulas de dinheiro, enquanto que a empresa de televisão recebe o dobro.

Mais tarde, em outro esquema, a equipe de arte do Jornal Nacional nomeou e inseriu fotos de quase todos os denunciados, com Macedo em primeiro lugar. As ligações da suposta quadrilha foram exibidas com grande parcimônia, o que é incomum quando falamos de televisão, mídia que exige rapidez. No entanto, o pior ainda estava por vir: ao terminar de dar “nome aos bois”, as frases “LAVAGEM DE DINHEIRO” e “FORMAÇÃO DE QUADRILHA” foram sobrepostas ao esquema, como se os acusados já tivessem sido condenados pela Justiça.

Esquema mostra Edir Macedo como chefe da quadrilha.

Esquema mostra Edir Macedo como chefe da suposta quadrilha.

Por fim, é preciso voltar ao tempo de exibição da reportagem. Sete minutos foram destinados a mostrar as denúncias do Ministério Público. A seguir, o advogado de Edir Macedo pôde defender o cliente das acusações: teve dois minutos para isso. No total, 9 minutos de reportagem. A título de comparação, o primeiro bloco do JN histórico sobre a eleição de Barack Obama teve minutagem semelhante à dedicada à Igreja Universal.

Enquanto isso, o Jornal da Record destinou pouco mais de dois minutos para falar das “verdades e mentiras” (conforme o blogueiro Emílio Moreno escreveu) das denúncias, praticamente se limitando a conversar com o advogado de Macedo. Pelo que vi no YouTube, em nenhum momento o telejornal esclareceu que o bispo é dono da TV Record.