O resultado pouco importa

Nessa história de controle social da mídia, o ex-ministro Franklin Martins rodou. Comandante-em-chefe da pasta da Comunicação Social até dezembro, Martins mostrou-se um grande proponente de uma forma pela qual a sociedade poderia exercer poder maior sobre os meios de comunicação. Paulo Bernardo, o ministro das Comunicações atual, avisou nessa semana que o projeto foi colocado de lado em definitivo.

Logo que o controle social da mídia entrou em pauta, os grandes grupos de comunicação fizeram ataques violentos a ele. A Folha de São Paulo não perdeu tempo: na sua artilharia, o argumento de que o governo tentaria censurar a imprensa. A Globo, ainda que de forma silenciosa, deu a entender que também faria coro contra o tal controle caso fosse necessário. Parece que nenhum deles entendeu de fato como a coisa ia funcionar.

Na Inglaterra existe faz tempo — atende pelo nome de Ofcom. Em vez de o governo assumir a posição de mediador no debate espinhoso sobre o controle social da mídia, os próprios veículos de comunicação se agremiaram. Resultado disso é um órgão independente e tido como suprapartidário, que tem autorização para fiscalizar e punir os meios de comunicação quando essa atitude se faz necessária. Parece que funcionou. A BBC é tradicional exemplo de como a mídia britânica pode oferecer conteúdo de qualidade excepcional.

Em comparação, os americanos espinafram qualquer tentativa de controle social da mídia. A livre iniciativa, que o American way of life tanto defende, rechaça o assunto. As empresas de comunicação podem dizer o que bem quiserem a qualquer momento, e não raro saem impunes quando lesam a informação, o bem mais precioso que a mídia pode oferecer. A liberdade em demasia vale tanto para veículos cujo conteúdo é reconhecidamente bom (caso da revista New Yorker) como para aqueles que deixam a desejar (a Fox News é um exemplo — não se passa um dia sequer sem que as reportagens ideologicamente direcionadas ataquem o governo do presidente Obama).

Cá no Brasil nós estamos num limbo quando o controle social da mídia entra em pauta. Franklin bem que tentou trazer a discussão à tona, mas não deu certo: à época da primeira Conferência Nacional de Comunicação (Confecom), nenhum grande grupo enviou participantes para discutir o assunto. Simplesmente se abstiveram de explicar seus pontos de vista para o público. E sempre que algum político volta a falar do controle social, lá vêm os editoriais inflamados destruindo cada possível aspecto positivo desse instrumento.

Enquanto isso, o público segue assistindo, lendo e ouvindo reportagens terríveis, mal apuradas, com erros de informação mais do que grotescos. Sem falar nos excessos amplamente conhecidos quando a opinião é fornecida travestida de fato. Se não vamos aprovar o controle social da mídia no fim das contas é algo que pouco importa. Para uma democracia jovem como a brasileira, está faltando discussão.

A utopia da imparcialidade

Meu compromisso é com a verdade. É com essa frase que muitos jornalistas justificam o mote da própria profissão, tão bem vista pela sociedade, mas ao mesmo tempo tão economicamente desprestigiada. Pois saiba que o compromisso com a verdade nada mais é do que um desejo, uma utopia que provavelmente nunca será realizada plenamente.

Isso ocorre porque não existe uma verdade. Quando os jornais circulam pela manhã, os âncoras de telejornal desejam um sonoro bom dia ou ainda os websites alteram a data do site para o dia corrente, todos dizem mostrar a verdade única, absoluta. No entanto, poucos são aqueles que admitem que não existe uma verdade só. O que existe são recortes da verdade, que vão ao encontro dos interesses dos veículos de comunicação e dos repórteres envolvidos em uma ou outra apuração.

E se a verdade não existe, como os meios de comunicação podem se manter onde estão? Aí sim está a grande questão que envolve a imparciaidade: pode até ser que ela não exista, mas a sua busca é fundamental para que haja equilíbrio nas comunicações. Por mais que nenhuma jornal ofereça a verdade – nua e crua, como manda o dito popular –, todos os jornais, quando reunidos e consumidos num mesmo momento, ajudam a montar um panorama mais verossímil do fato que é apresentado.

Ou seja, nenhum veículo apresenta a verdade. Por isso é importante que o consumidor de informação – impressa, televisionada, radiofônica, publicada na web etc. – se informe por múltiplos canais. Isso vai garantir que a sua interpretação dos fatos e a tomada de decisão sejam coerentes com o que aconteceu (ou acredita-se que tenha acontecido).

A importância do estudo de Jornalismo é garantir que o aluno, futuro jornalista integrante do mercado de trabalho, conheça o que já foi feito de certo e de errado no meio. Somente dessa forma é que o estudante desenvolve um senso crítico capaz de enxergar os fatos de modo mais amplo, capaz de registrar tais fatos de forma mais fidedigna, e também capaz de informar o leitor de uma maneira que não comprometa a interpretação do que aconteceu.

Esse é o desafio dos jornalistas recém-formados num mercado de trabalho cada vez mais competitivo: narrar fatos com isenção, mesmo que a isenção propriamente dita não exista. Mas o caminho que – ao menos na teoria – deveria ser percorrido para chegar a essa isenção (apuração correta, ouvir o outro, buscar informações em fontes de qualidade) não pode ser esquecido. Pautado pela ética, é ele quem garante que o dever jornalístico seja cumprido.

Amanpour dá adeus à CNN

Na última semana, quem acompanha a CNN pode presenciar o fim de um ciclo que durou 27 anos. Christiane Amanpour, a editora-chefe de internacional da CNN, fez seu último programa na emissora famosa no mundo inteiro por suas coberturas jornalísticas de conflitos internacionais.

Começou assim:

Essa é a nossa transmissão final. E eu gostaria de dizer que privilégio tem sido estar na CNN pelos últimos 27 anos. De ter tido a oportunidade de reportar as notícias de todo o mundo e a partir de todo o mundo para você.

Eu tenho tentado ser seus olhos e ouvidos na busca pela verdade e pelas histórias que imploram para ser contadas. Essa tem sido a minha missão no campo e aqui no estúdio.

Minha equipe e eu gostaríamos de agradecer. Eu gostaria de deixá-los com momentos que nós nunca vamos esquecer.

Uma sucessão de imagens mostra como foi o trabalho desenvolvido pela repórter nas últimas décadas. E repare nos 3’14″, quando Amanpour está encerrando uma matéria, mas é surpreendida por um tiro de canhão ao fundo. Haja sangue frio…

Christiane Amanpour volta ao Jornalismo em agosto, quando vai se tornar apresentadora do This Week na ABC News (que infelizmente não passa no Brasil).

Estadão.com.br decide centralizar tweets em uma só página

O Estadão.com.br, site noticioso de O Estado de S. Paulo, disponibilizou nessa segunda-feira uma página na qual usuários poderão saber o que exatamente o jornal vem publicando em cada uma de suas contas no Twitter.

A rede de microblogging vem sendo usada com bastante frequência pelo grupo, que a utiliza para canalisar novas visitas para suas páginas internas. Nada mais inteligente, portanto, que concentrar esses links e comentários em um só lugar, de preferência dentro do próprio Estadão.com.br.

Página especial para Twitter do Estadão. (Clique para ampliar)

Página especial para Twitter do Estadão. (Clique para ampliar)

“Acompanhe tudo o que as editorias do Estadão publicam”, propagandeia a página que, no momento da redação desse post, tinha “Estadão”, “Link na Campus Party”, “Internacional”, “Ponto Edu” e “Trânsito” como widgets da página abertos nativamente. Isso mostra – ou pelo menos sugere – que as editorias do jornal abertas nativamente vão variar de acordo com o que o noticiário tiver a oferecer.

Hoje é Campus Party (por sinal, quem estiver no evento poderá concorrer a quatro Playstations 3 e uma viagem para Madri, graças a um concurso apoiado pelo Tecnoblog), mas amanhã pode ser um novo terremoto no Haiti (esperemos que não).

É interessante ver que a mídia dita tradicional está abraçando cada vez mais as mídias sociais e as utilizando a seu favor. Estudo recente indica que algo em torno de 10% das visitas do New York Times na internet já são provenientes de redes sociais. Eu aposto que esse número ainda vai aumentar. O que você acha?

A câmera 360º da CNN no Haiti

Todo mundo sabe que o Haiti vem sofrendo fortemente com falta de alimentos, suprimentos médicos e até mesmo moradias desde que um grande terremoto atingiu o país – na verdade, esse problema já é crônico por lá, mas o terremoto certamente colaborou para a calamidade do local.

A CNN, como não poderia deixar de ser, enviou equipes de repórteres (entre eles o calejado Anderson Cooper), cinegrafistas e produtores para cobrir a devastação do país. Até aí, tudo normal para uma cobertura jornalística. A grande novidade que o veículo de comunicação apresentou ao mundo é o vídeo com visualização dos 360 graus do cenário que encontrou por lá.

Vídeo em 360º de ruas do Haiti. (Reprodução)

Vídeo em 360º de ruas do Haiti. (Reprodução)

Depois que o vídeo é carregado, o internauta pode usar o mouse para controlar o ângulo de visão do vídeo. Além de movimentar a câmera livremente, o usuário ainda pode usar o scroll do mouse para aproximar ou distanciar a imagem, tirando proveito do zoom (embora a imagem fique embaçada).

A empresa responsável pela tecnologia é a Immersive Media, que em seu site diz oferecer vídeos interativos em 360º a organizações e governos envolvidos na reconstrução do Haiti. Além do vídeo que a CNN disponibilizou, a empresa mantém uma página com mais imagens interativas feitas no país.

As retrospectivas de 2009 na web

Falta pouco. Em mais algumas horas nós damos tchau ao ano de 2009 e saudamos a chegada de 2010. Nesse momento você deve estar aproveitando seu recesso, sem pensar em trabalho. Diferentemente do que foram as redações das empresas jornalísticas nas últimas semanas, que trabalharam a todo vapor para resumir tudo o que aconteceu nesses mais de trezentos dias. Sim, falo das retrospectivas.

A internet não poderia ter outro tratamento. Alguns grupos de comunicação investiram bastante para proporcionar ao usuário uma experiência bacana na hora de revisitar os fatos mais importantes de 2009. Outros ficaram no básico, mas mesmo assim deram espaço para as retrospectivas em seus sites.

Confira abaixo as retrospectivas que foram apresentadas por alguns dos principais sites jornalísticos e jornais virtuais, devidamente comentadas por mim. Clique nas capturas de tela para ampliá-las.

G1

A retrospectiva do G1, presença noticiosa mais importante do Grupo Globo na internet, foi a que mais me agradou. Em vez de texto, o site apostou em conteúdo multimídia, principalmente em vídeo. A retrospectiva foi dividida por assuntos afins, de modo que o usuário tem uma noção de linearidade entre cada fato ocorrido em 2009.

Eu gosto das retrospectivas em vídeo porque é preciso ter uma narrativa bastante interessante para prender a atenção da audiência, objetivo que o G1 cumpriu muito bem. Além disso, no rodapé do player aparecem links que permitem que o usuário vá diretamente para aquela notícia e possa ler novamente.

R7

Na cola do G1 vem o R7, atualmente o segundo site de notícias do Brasil. O veículo da Rede Record nasceu há alguns meses, então não tem como linkar para si mesmo na hora de mostrar os fatos mais relevantes de 2009. Optaram por um infográfico em texto e imagem, mas que pode conter vídeo (principalmente nos últimos meses do ano, quando o R7 já tinha iniciado suas operações).

Globo Online

O site do jornal carioca O Globo aproveitou a retrospectiva para fazer uma campanha institucional. Logo que o usuário abre a página especial, se depara com um mosaico no qual pode escolher uma das imagens e visualizar o conteúdo que os jornalistas do veículo produziram.

Interessante mesmo é a possibilidade de enviar mensagens para o jornal com a perspectiva para 2010. Vários usuários já participaram, inclusive com vídeos publicados no YouTube seguidos de um recado otimista para o próximo ano.

Folha Online

Para que investir algo em algo legal quando você pode fazer mais do mesmo? Provavelmente foi o que a chefia de redação da Folha Online pensou quando optou por fazer uma retrospectiva completamente em texto (para não ser injusto, também há algumas fotos).

Matérias enormes foram publicadas no site do jornal, na esperança de que algum usuário lesse. Os jornalistas do veículo conseguiram ignorar completamente a tendência de fazer textos mais enxutos para web, escrevendo justamente o contrário: reportagens extensas e chatas de ler na tela do computador.

Último Segundo

Não tenho o hábito de acessar o canal de notícias do iG por um motivo muito simples: o design me desagrada profundamente. Ainda assim fui lá dar uma olhada na retrospectiva. Seguiram a receita da Folha Online e produziram muito texto, porém sem dar destaque à multimídia. O máximo, pelo que pude ver, foram slideshows com no melhor estilo “fatos & fotos”.

Estadão.com.br

Não entendi muito bem qual foi a proposta do Estadão.com.br ao permitir que seus usuários votassem nos fatos mais importantes dos anos 2000, que vão desde 2000 a 2009. A apresentação dos resultados foi em forma de mosaico, no qual você pode descobrir quem é o blogueiro mais votado (no caso, a Rosana Hermann, que atualmente mantém o blog Querido Leitor dentro do portal R7) ou a empresa da década (Google, é claro).

Portal R7: primeiras impressões

Entrou no ar ontem, pouco antes das oito da noite, o R7, novo portal de conteúdo criado pela Grupo Record. Quem me acompanha no Twitter pôde ler alguns comentários acerca do novo estabelecimento, mas sempre há algo mais para comentar.

logo-r7Gostei da marca que o novo site adotou. Um balão de diálogo, em tempos de web 2.0 – detesto esse termo –, foi algo bastante inteligente de ser concebido. Pena que o nome do portal em si seja tão parecido com outro, justamente da principalmente concorrente da Record nos dias de hoje. Pelo menos é um nome conciso, fácil de lembra, e fica bem ao ser exibido na televisão.

O layout do portal deixou a desejar. Toda vez que a gente ouve falar em investimentos de centenas de milhões de reais, espera que aquele novo produto ou serviço seja matador mas que também seja original. Não é o caso do R7. A equipe de design fez uma alquimia qualquer na qual iG e Globo.com foram combinados, resultando no que é atualmente o novo portal do bispo Edir Macedo.

Barra de destaque patrocinada por montadora.

Barra de destaque patrocinada por montadora.

Uma coisa que me chamou a atenção foi a barra com a principal manchete do momento (por enquanto anunciando a chegada do portal na web brasileira). Não me lembro de ter visto, nos sites noticiosos brasileiros, implementação semelhante. É uma forma inteligente de explorar uma nova área de publicidade, que tira bom proveito da credibilidade que o portal espera construir.

Com relação ao conteúdo, muita coisa ainda precisa ser azeitada. O uso excessivo de fotos de bancos de imagem, por exemplo, pode ser um problema: colocar uma ruiva com celular de última geração na mão, em um ambiente que claramente não é o Brasil, faz a matéria sobre o mercado brasileiro perder o contexto.

Redes sociais estão presentes.

Redes sociais estão presentes. (+)

Pelo menos não deixaram as redes sociais de lado. Dias antes a Folha Online já havia estreado uma barra através da qual usuários poderiam recomendar os textos, e o R7 foi pelo mesmo caminho. Dependendo da página, esse link pode ter a formatação quebrada, mas é algo que, com o tempo, certamente será corrigido.

Gostei demais de saber que os vídeos da TV Record estariam no portal, principalmente os de telejornais. A realidade de quem acessa, no entanto, não é das melhores. Tentei ver vários vídeos no Chrome, mas somente um funcionou corretamente. Os outros sequer carregavam.

É bom ver que um grande grupo empresarial está investindo nesse meio. Independentemente da linha editorial que o R7 assumir, são milhões que vão gerar emprego e ajudar o mercado de internet a crescer ainda mais.

Resenha: Jornal Nacional, Modo de Fazer

Capa de "Jornal Nacional: Modo de Fazer"Em primeiro de setembro desse ano o principal telejornal do país celebrou seus quarenta anos no ar. Sim, estou falando do “Jornal Nacional”, que atualmente é apresentado por Fátima Bernardes e William Bonner. Tendo em vista a comemoração, Bonner aproveitou para escrever um livro que mostra um pouco de como é o processo de feitura do JN. Essa é a proposta de “Jornal Nacional: Modo de Fazer“.

Longe de ser um manual de redação mais completo, como aqueles de O Globo ou da Folha de São Paulo, “Modo de Fazer” fala de decisões mais práticas que o editor-chefe William Bonner e seus superiores já tiveram que tomar, visando ao cumprimento do objetivo primordial do JN. Anote aí:  mostrar o que de mais importante aconteceu no Brasil e no mundo naquele dia, com isenção, pluralidade, clareza e correção. Bonner martela esse objetivo várias (muitas!) vezes durante o livro.

O que eu mais gostei em “Jornal Nacional: Modo de Fazer” foram as histórias das edições atípicas do telejornal. Como naquela fatídica sexta-feira, quando o Jornal Nacional terminou e Bonner, com sua equipe, pegou o primeiro avião rumo a Roma. Horas depois, quando chegavam à capital italiana, teriam que fazer a cobertura histórica da morte do papa João Paulo 2º (vídeo aqui).

Outra história das mais interessantes foi quando São Paulo deu lugar, no ano de 2006, aos atentados praticamente terroristas organizados pelo PCC. Bonner confessa no livro que percebeu que seria necessário apresentar o telejornal da capital paulista no fim da tarde. Numa verdadeira operação de guerra, lá se foi a equipe dele rumo a São Paulo, de onde ele apresentaria o JN. Detalhe: sentado em uma banqueta, numa laje do prédio onde meses depois seria inaugurada a nova sede da TV Globo em São Paulo (vídeo aqui).

Não espere encontrar em “Jornal Nacional: Modo de Fazer” uma obra prima literária. Nem é a isso que o livro se propõe. Bonner escreve de forma muito simples e fluida, como se estivesse conversando com o leitor. Mais ou menos como os blogs funcionam, com uma linguagem bem mais próxima do coloquial que aquela adotada pelos jornalões.

Vale a pena para estudantes de Jornalismo como eu e para quem tem o simples interesse de saber como o principal telejornal do país funciona. Também vale a pena para quem quer saber em que circunstâncias William Bonner gritou “Puta que pariu!” na frente de um presidente eleito. :P

“Jornal Nacional: Modo de Fazer”

Guerra no Jornalismo: Jornal da Record responde Globo

No Jornal Nacional de ontem, a TV Globo mostrou de forma insistente e demorada as acusações do Ministério Público de SP contra Edir Macedo, líder da Igreja Universal e dono da TV Record. Hoje foi a vez da Record responder.

Durante a programação da emissora, apresentadores alertavam para as respostas que a Igreja Universal daria durante o Jornal da Record. Na internet, o próprio Macedo anunciou que a resposta viria, através da conta dele no Twitter.

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Às 19h45 em ponto, lá estavam Celso Freitas e Ana Paula Padrão a fazer a escalada do telejornal. Para quem esperava algum destaque às acusações, surpresa: o assunto Igreja Universal só apareceu no fim, quando Padrão falou dos “interesses que podem estar por trás da notícia”.

Quando deu oito e quinze, o Jornal Nacional começou, enquanto a Record passava reportagem que nada tinha a ver com o assunto. Voltaram a mostrar esquema com fotos e nomes de envolvidos na suposta quadrilha. Também disseram que o dinheiro arrecadado pela Igreja Universal tinha outro destino, as empresas de comunicação de Edir Macedo. De modo geral, um resumo do que já tinha sido apresentado no dia anterior.

No terceiro bloco do Jornal da Record, a resposta finalmente apareceu. “O crescimento da Rede Record nos últimos anos foi impressionante”, iniciou Ana Paula Padrão às 20h20. Foram minutos de acusações à TV Globo e à família Marinho, que segundo a reportagem utilizaria a emissora para seus interesses particulares.

Mostraram que o tempo da reportagem feita pela Globo sobre as acusações à Universal tinha sido desproporcional ao dado pelas outras principais emissoras (conforme eu disse em outro post). Lúcio Sturm, um ex-global (assim como muitos funcionários da TV Record), foi o responsável pela reportagem sobre a Globo.

Tempo de reportagens sobre Universal em cada emissora.

Tempo de reportagens sobre Universal em cada emissora. (TV Record/Fonte: Gregori Pavan)

Numa jogada de mestre, o Jornal da Record reproduziu o direito de resposta de Leonel Brizola em pleno Jornal Nacional, feito há muito anos. Também utilizaram diversas imagens do documenário “Muito Além de Cidadão Kane” (você encontra no YouTube), que se propõe a contar as falcatruas da emissora carioca e, em tese, estaria proibido de ser veiculado no país.

Uma das hipóteses levantadas pela Record foi a ameaça que a Globo sente de perder seu “monopólio de comunicação”, o que não é uma completa verdade. Se a própria Record comemora a queda na audiência da Globo e sua própria ascensão, é sinal de que o dito “monopólio” já não existe mais. Temos, aí sim, dois grandes players brigando. E, nesse caso, vale aquele ditado que diz “que vença o melhor”.

Após a reportagem sobre a TV Globo, o Jornal da Record falou das ações sociais feitas pela IURD. De fato existem, mas em que proporção ao valor que é arrecadado pelo grupo? Essa pergunta ficou sem resposta. Macedo também não respondeu como conseguiu enriquecer tanto durante esses anos, se tornando dono de mais de dois bilhões de reais.

A reportagem-reposta do Jornal da Record foi feita à altura da reportagem do Jornal Nacional. A diferença é que o JN se utilizou de uma acusação do Ministério Público tornada pública ontem. Ou seja, notícia. Enquanto isso, o Jornal da Record usou imagens de arquivo para relembrar acusações antigas à Vênus Platinada, que não estão sob investigação atualmente.

Será que a guerra no jornalismo para por aqui? Façam suas apostas.

Outra Opinião I » Micael Silva, que já escreveu por aqui, deixou registrado o que ele pensa sobre a guerra entre Rede Record e Rede Globo no Gengibre (em áudio).

Outra Opinião II » Gregori Pavan comentou a guerra: “Achei que foi uma boa resposta, mostrou verdades que são a todo custo escodidas pela Rede Globo, mostrou que houve um excesso por parte da TV Globo, e um uso indevido da informação.”

Globo bate em Edir Macedo

Assim que os primeiros sites de notícias brasileiros começaram com suas manchetes dizendo que o Ministério Público de São Paulo havia feito denúncia contra Edir Macedo, líder da Igreja Universal e dono da TV Record, já era de se esperar que um tratamento todo especial do assunto fosse dado pela Rede Globo de Televisão. Não foi diferente.

Na escalada (as manchetes, antes da vinheta de abertura) do Jornal Nacional de ontem, Edir Macedo e a Universal foram os destaques da noite. E logo que o telejornal começou, deu para perceber que a artilharia da emissora da Vênus Platinada seria pesada.

Foram quase dez minutos nos quais cada aspecto das denúncias do MP-SP foi tratado pelos repórteres do JN. Um dossiê completo dos negócios (muito suspeitos, por sinal) da Igreja Universal foi exibido para todo o Brasil, com imagens de arquivo e detalhes mínimos que, se fosse outra instituição, não seriam levados tão a sério.

Um dos momentos mais tensos da reportagem cheia de arte gráfica foi quando exibiram esquema do trajeto feito pelo dinheiro dos fiéis da Igreja Universal, que começava nos templos, passava por paraísos fiscais e depois retornava ao Brasil em forma de empréstimos para pessoas ligadas a Macedo. A tensão fica por conta de uma das empresas que receberia o dinheiro (segundo o Ministério Público):

Rede Record entre os supostos beneficiários.

Rede Record entre os supostos beneficiários.

Isso mesmo, a Rede Record. Não é preciso ser um gênio da Comunicação para perceber que o tamanho da fonte em que “REDE RECORD” está escrito foi claramente desproporcional ao resto do texto. Não bastasse isso, repare que “aeronaves” e “imóveis” recebem apenas um maço de cédulas de dinheiro, enquanto que a empresa de televisão recebe o dobro.

Mais tarde, em outro esquema, a equipe de arte do Jornal Nacional nomeou e inseriu fotos de quase todos os denunciados, com Macedo em primeiro lugar. As ligações da suposta quadrilha foram exibidas com grande parcimônia, o que é incomum quando falamos de televisão, mídia que exige rapidez. No entanto, o pior ainda estava por vir: ao terminar de dar “nome aos bois”, as frases “LAVAGEM DE DINHEIRO” e “FORMAÇÃO DE QUADRILHA” foram sobrepostas ao esquema, como se os acusados já tivessem sido condenados pela Justiça.

Esquema mostra Edir Macedo como chefe da quadrilha.

Esquema mostra Edir Macedo como chefe da suposta quadrilha.

Por fim, é preciso voltar ao tempo de exibição da reportagem. Sete minutos foram destinados a mostrar as denúncias do Ministério Público. A seguir, o advogado de Edir Macedo pôde defender o cliente das acusações: teve dois minutos para isso. No total, 9 minutos de reportagem. A título de comparação, o primeiro bloco do JN histórico sobre a eleição de Barack Obama teve minutagem semelhante à dedicada à Igreja Universal.

Enquanto isso, o Jornal da Record destinou pouco mais de dois minutos para falar das “verdades e mentiras” (conforme o blogueiro Emílio Moreno escreveu) das denúncias, praticamente se limitando a conversar com o advogado de Macedo. Pelo que vi no YouTube, em nenhum momento o telejornal esclareceu que o bispo é dono da TV Record.