Crítica: This Is It

Quando eu fui ao cinema, no último sábado, pronto para assistir a “This Is It”, não sabia o que esperar. Um filme sobre Michael Jackson, sendo que o próprio rei do pop já morreu? Difícil pré-visualizar o que Kenny Ortega, diretor do filme e também diretor da última turnê que nunca aconteceu, pretendia aprontar.

Pôster de "This Is It"

Pôster de "This Is It"

Depois que metade da sala de cinema já estava devidamente acomodada em suas poltronas (eu pensei que estaria lotado), finalmente começamos a descobrir a que esse documentário se propõe: tentar, de alguma forma, transformar a turnê “This Is It” em um filme, a partir de imagens originalmente para o arquivo pessoal de MJ. Não é por acaso que muitas das cenas são tremidas, principalmente no começo do filme, mas com o tempo a música e a genialidade do astro começam a fluir e o espectador esquece esse mero detalhe.

Podemos ver em cena um Michael Jackson dedicado, que sabe o que está fazendo e demonstra querer fazer ainda mais. Nem de longe lembra aquele homem de meia idade sem energia, que tomava sistematicamente remédios para combater a dor. Pelo contrário: tendo visto imagens de MJ desde a década passada, devido aos programas especiais dedicados à sua morte, afirmo que fazia tempo que não via o cantor tão vivo. Irônico, não?

As músicas são um show à parte. Está para nascer uma pessoa que não se habilite ao menos para cantarolar algumas músicas do astro, como “Thriller” ou “Man In The Mirror”. São tantas as canções famosas na voz de MJ que fica impossível não se deixar pela “empatia musical” que o filme carrega.

Também em “This Is It” conhecemos um Michael Jackson absurdamente perfeccionista. Ele interrompe canções para mostrar aos músicos como se faz corretamente. E o melhor: os músicos concordam com eles. MJ sabe que é o astro do show e, mesmo com sua fala mansa e voz afeminada, não se deixa sair dessa posição. Quem manda ali é ele, pois ele sabe o que está fazendo.

Foi como a Faby Lovati escreveu em sua crítica sobre “This Is It” no Achei Tendência:

Fato que fica constatado quando MJ interrompe os ensaios para dizer à banda o jeito que ele quer que os arranjos soem. Tudo de uma forma carinhosa, diga-se de passagem. “All for love”, ele dizia. Dessa forma, pudemos ver músicas como Human Nature e The Way You Make Me Feel nascendo lindamente na frente dos nossos olhos. Isso sem falar no dueto feito com uma de suas backing vocalists em I Just Can’t Stop Loving You, na qual ele canta brilhantemente.

Uma passagem especial no filme que me chamou a atenção foi quando começam as músicas da época mirim de Michael Jackson, no grupo Jackson 5. Com “I Want You Back” ao fundo, eu pensei que seria um dos momentos mais animados do filme, até perceber que o astro simplesmente não consegue pôr sua voz a serviço da bela música. Diz ele que o som estava alto; pelas expressões de MJ no palco, eu creio que essa seja só uma desculpa esfarrapada.

Todo mundo sabe que Michael Jackson não teve uma infância das mais saudáveis, trabalhando como louco e ainda tendo que suportar um pai que o espancava. A pergunta que fica é: MJ estava preparado para retomar músicas da infância no show de despedida? Ficaremos sem saber.

Infelizmente por serem ensaios para a turnê de despedida, não é em toda música que Michael Jackson coloca sua voz de verdade. Com isso, também não dá para saber o quão preparado o cantor estava para essa última prova de sua grandiosidade musical. No entanto, naquelas músicas em que ele canta de verdade é visível que a voz do astro ainda tem muita presença e agrada.

michael-jackson-this-is-it

Seja por curiosidade, seja por fanboyism, acho sim que vale à pena ir ao cinema assistir a “This Is It”. É evidente que a polêmica que envolveu o nome de Michael Jackson continuará existindo, mas como filme estritamente musical “This Is It” é bem bom. E mais: eu te desafio a ir assisti-lo e conseguir ficar sem balançar a perna ao ritmo de pelo menos uma das músicas. :P

Crítica: “Tom e Vinícius, o musical”

Ainda hoje muitas pessoas torcem o nariz para a bossa nova, um ritmo brasileiro que, dizem, é cópia mal feita do jazz. Outros defendem a bossa nova como variação do samba. Não importa. O som é muito agradável, e por isso mesmo sobrevive há cinquenta anos.

Marcelo Serrado e Thelmo Fernandes como Tom e Vinicius. Foto: Vani Toledo, divulgação

Grandes expoentes da bossa nova, Vinícius de Moraes e Tom Jobim são o tema central do espetáculo “Tom e Vinícius, o musical”, em cartaz no Rio de Janeiro. Se pudesse resumir a peça em uma palavra, seria a seguinte: impecável. A direção não tem grandes pretensões, exceto de contar a história que Tom e Vinícius compartilham. A fórmula é simples e absolutamente funcional.

O musical é recheado de canções conhecidas por quase todos nós, que ficamos com imensa vontade de sair cantando junto com os atores, todos muito bem afinados. A banda presente não deixa por menos: executa as músicas com uma precisão incrível. Em alguns momentos pessoas mais emotivas não seguram as lágrimas diante de obra tão bem feita.

Marcelo Serrado, ator da TV Record, faz o papel de Tom. Baseando-me nas poucas vezes que vi o ator participando de uma novela qualquer, nunca poderia pensar que ele faria Tom de forma tão perfeita. No entanto, é o “Vinícius de Moraes” quem surpreende. O ator Thelmo Fernandes contagia o público logo na primeira cena. Ao longo da história, torna-se ainda mais cativante pela sua graça. Ele é engraçado sem ser bobo, muito menos se utilizando de um humor forçado.

A presença de Guilhermina Guinle, que vive duas das nove esposas de Vinícius, fica em segundo plano. A atriz poderia ter sido mais bem aproveitada, mas concentra-se em apenas algumas poucas cenas, algumas com enorme carga emocional. Ainda assim, é uma presença interessante e que vale a pena ser vista.

Outro que merece destaque é o ator que interpreta Juscelino, o presidente bossa nova, e mais tarde Frank Sinatra. Quando Tom e Vinícius cantam a famosa Girl From Ipanema, fui obrigado a perguntar a algumas pessoas próximas se era playback. E o melhor é que não, os dois atores levam a música no gogó, de forma absolutamente igual ao original (clique aqui para ver o vídeo), com a mesma expressão corporal, os mesmos tiques e as mesmas falas de Sinatra durante a música, numa sincronia perfeita.

O cenário de “Tom e Vinícius , o musical” é simples, mas cumpre bem seu papel. Dezenas de milhares de reais não foram gastas no cenário, mas isso pouco importa. A grandiosidade dos atores e das músicas, ouso dizer, dispensaria qualquer tipo de cenário.

Tendo a oportunidade, corra para o teatro e assista a “Tom e Vinícius, o musical”. Recomendadíssimo.

Serviço
“Tom e Vinícius, o musical” (clique para ver o teaser no YouTube)
Teatro Carlos Gomes (Praça Tiradentes s/nº, Centro).
Preços: quinta-feira – R$ 30,00; sexta, sábado e domingo – R$ 40,00. Ingressos disponíveis no Ticketronics.