As mídias sociais contra o laboratório Bristol e a suspensão do Corgard

Se você nunca ouviu falar no Corgard, sorte a sua. O medicamento é voltado para pessoas que têm algum tipo de problema cardíaco. Cardiopatas e hipertensos, por exemplo, podem precisar em alguma momento fazer uso do remédio. Ou poderiam, na condicional mesmo, pois o laboratório Bristol encerrou a venda da droga no país. A desculpa deles é que a matéria-prima, chamada nadolol, é difícil de ser encontrada.

Esse não é o primeiro caso em que usuários ficam prejudicados pela ganância empresarial. Bons remédios simplesmente somem do mercado porque não dão lucro e ninguém pode obrigar um laboratório a continuar produzindo um remédio. No caso do Corgard, os pacientes, pelo que leio nos relatos que chegam diariamente (já somos quase 100 pessoas no Brasil todo!) não estão reagindo bem aos outros betabloqueadores e vêm sofrendo evidente prejuízo em sua qualidade de vida.

Quem conta é Sandra Machado, blogueira novata, mas jornalista e professora de Comunicação Social veterana. A Sandra iniciou uma verdadeira campanha no blog dela, o Quase Sociopata (que faz parte da rede de blogs que administro), tentando mostrar ao mundo o descaso do Bristol-Myers Squibb com os doentes que dependem desse remédio para ter uma qualidade de vida menos pior.

Corgard, descontinuado pelo laboratório BristolCom faro jornalístico apurado e senso de comunidade, a blogueira agora faz uma reunião de depoimentos de pessoas que precisam (ou precisavam) do Corgard. Vitória das ditas mídias sociais? Eu acredito que sim, felizmente. Embora o laboratório ainda não tenha se manifestado sobre esse assunto, só a união que os posts da Sandra estão causando já é algo de admirar. São mais de 90 comentários, entre queixas de pessoas que não têm mais acesso ao Corgard e respostas escritas pela Sandra.

E aqui cabe lembrar: não falo de manifestação contra empresa de telefonia, como no post sobre o Oi Velox aqui no Memórias Fracas, que tem quase quinhentos comentários. Pelo contrário, falo de uma necessidade de saúde, que mexe diretamente com a vida das pessoas. Tem coisa mais complicada?

Ainda é uma incógnita o modo como as multinacionais vão se comportar diante dessa nova capacidade de mobilização que a internet permite. No caso do Corgard, a Sandra já orientou os visitantes do blog para que denunciem à Anvisa a recusa do Bristol em produzir o medicamento. Na minha luta antiga com a Oi – que atualmente vive momentos de paz -, até hoje a empresa não deu qualquer satisfação a mim ou a esse blog sobre a enorme quantidade de reclamações que estão disponíveis por toda a rede.

Fato é que a opinião particular das pessoas ganha cada vez mais peso, porque agora essa opinião está mais disponível e acessível do que jamais foi e qualquer post pode arruinar (ou quase) uma marca. Basta lembrar do caso Cicarelli (a apresentadora tentou tirar o YouTube do ar), ou mais recentemente de uma agência de publicidade que tentou censurar um blog.

E aí, dirigentes do Bristol, alguma explicação sobre o sumiço do Corgard será dada? Ou vão esperar que os blogs relatem os primeiros óbitos decorrentes do fim de comercialização do remédio?

Doença do iPod

Se junto a grandes poderes vêm grandes responsabilidades, junto a tecnologias benéficas sempre vem algo prejudicial. Quem acompanha a evolução tecnológica, como eu ou você, deve saber que ferramentas são ferramentas. E que é o uso delas que as define como sendo algo bom ou ruim.

Bom é ter um aparelho que, de tão leve, pode ser carregado para qualquer lugar sem que a gente nem perceba. Sim, estou falando do tão amado iPod. São centenas de músicas na palma da mão – ou na ponta dos dedos, se estivermos falando do iPod touch – que nos proporcionam muito divertimento. Mas que também podem nos trazer sérios danos à saúde.

Está ficando um absurdo o volume no qual nós escutamos nossos eme-pê-três, eme-pê-quatro, sei lá… eme-pê-dez. E falo “nós” porque eu me incluo no time dos surdos digitais. Estando no metrô ou ônibus, não é muito raro me ver escutando iPod em uns 75% do volume máximo. Faço isso para tentar isolar o som ambiente, mas parece que também estou errado.

Se não me engano, escutar meia hora de música berrando, no volume máximo, diariamente é o suficiente para começar a perder a audição. Acho que ninguém quer isso, então, embora seja chato, é melhor começarmos a usar o controle de volume dos nossos reprodutores de música. Os tímpanos agradecem. Não vamos deixar que a surdez graças a gadgets se torne um dos males do século vinte e um.

[O vídeo que ilustrava esse post foi removido do Globo Vídeos.]